[Cuba Liber] Bernie

“É com imenso pesar que anuncio o falecimento de meu marido, Bernie”.

Liz publicou isso hoje no site oficial de Bernie Wrightson, junto de um obituário.

Bernie Wrightson faleceu por causa de um câncer. Há outras 3 postagens na página, espaçadas por meses, noticiando a intenção de finalmente produzir o próprio site, comentando o final da quimioterapia, a boa recuperação, o início de uma “maratona” em eventos e comic cons e afins, um projeto no Kickstarter, uma recaída e perda de movimentos, o falecimento.

A trajetória pessoal e profissional de Bernie com os quadrinhos soa muito familiar pra muitos e muitas de nós, que curtíamos as revistinhas, fazíamos uma lista de autores favoritos, copiávamos desenhos, fazíamos cursos por correspondência pra ser desenhistas e criar nossas próprias histórias.

Bernie quis ser desenhista de quadrinhos, meu Deus.

Isso logo depois daquele fervo anticomunista que achava que os comics eram um plano soviético para transformar as crianças americanas em ateus gayzistas delinquentes. Queimas de quadrinhos em praça pública e um código de censura que inviabilizou as publicações de terror da EC Comics, justamente as que mais inspiraram o Bernie pra seguir carreira.

Estranho, né? Você encontrar uma coisa que te maravilha e querer trabalhar com ela mesmo quando todo mundo te diz que ela é desprezível e condenável. Dá muito o que pensar.

Da minha parte, posso dizer que não fui um grande colecionador das obras de Bernie, mas devo a ele pelo menos três de minhas memórias mais preciosas dos quadrinhos.

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Hulk e o Coisa, a “graphic marvel” número 1, publicada pela abril em maio de 1990. O roteiro era do Jim Starlin. Saí do Cefet, era fim de tarde, passei na banca da esquina.  Lembro de folhear a revista e me impressionar com a primeira imagem do Coisa, um close de seu rosto indignado e surpreso enquanto sangue escorria por ele. Aquela coisa do nerd que não quer spoilers, vi por cima outras páginas e comprei pensando “que caralhos de história é essa? Sangraram o Coisa?”. Depois fui descobrir que o sangue era um tomate… 😛

Nessa mesma época eu também curtia as histórias do Hulk — era o começo da fase do Peter David. Gostava de comprar gibis e ler no ônibus de volta pra casa. Eram uns quarenta minutos de busão, então, geralmente dava pra ler um gibi inteiro. E o que me lembro do Hulk e o Coisa em questão foi justamente uma virada de páginas que me fez ter o primeiro (mas não o último, graças à Liga da Justiça de Giffen e De Matteis) surto de risos dentro do ônibus. Aquele surto de riso de fazer a barriga doer, que você tenta controlar pra não chamar a atenção dos outros e só piora e, de repente, você percebe que está chorando de rir. Caralho.

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Bernie era o cara dos monstros. Ele desenhava uns bichos musculosos, que me pareciam extremamente sólidos, pesados, mais do que os outros desenhistas.  A experiência e o apreço pelos quadrinhos de terror da EC davam pra aventura cósmica de Bruce e Ben um toque completamente diferente. Humor, alta tecnologia e ao mesmo tempo uma qualidade plástica que eu não conseguia definir. Era um material incomum pra mim.

Essa tal qualidade plástica era o toque de Bernie. Não gosto da palavra “atmosfera” porque ela é vaga e parece significar nada, mas não consigo pensar em outra pra definir essa característica de Bernie. Daí a segunda memória, o gibizinho do Monstro do Pântano, número 6, também da Editora Abril, de junho de 1990. Era uma história escrita pelo Alan Moore,  na qual a Abby sonhava com a Casa dos Segredos de Abel. E, pra variar, Caim e sua Casa de Mistérios também estava lá.

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(Daí agora descobri que The House of  Mistery #179, de abril de 1969, teve a primeira história publicada do Bernie, The man who murdered himself.)

O “segredo” que Abe conta é a história original do Monstro do Pântano escrita por Len Wein e desenhada pelo Bernie pra revista House of Secrets #92, de julho de 1971. Daí a tal atmosfera, aquele jeito das histórias em quadrinhos de terror da EC, mas com um toque um tanto diferente, um texto mais enxuto. E a representação de mansões, a moça desejada,  a maldição de se perceber um monstro e toda a receita da mescla de Poe e Lovecraft. Pra mim, era como se o traço do Bernie, suas formas e sombras, servissem perfeitamente pra dar substância a esse tipo de história. Tudo certo, no seu devido lugar.

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Daí minha terceira memória, que nem é do Bernie propriamente, que vergonha.

É dos caras que tentaram emular esse jeitão dele, essa atmosfera. A primeira edição do Sandman de Neil Gaiman, Sam Kieth e Mike Dringenberg foi publicada aqui no Brasil pela Editora Globo em novembro de 1989, mas, pelos meus cálculos, eu devo ter comprado ela em outubro ou novembro de 1990. Passei numa banquinha e as edições estavam juntas numa caixa de papelão com outros gibis encalhados, por um preço muito camarada.

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Tem muita gente que acha a arte daquela primeira edição do Sandman,  O Sono dos Justos,“um lixo”. Acho um exagero dizer isso, mas, sim, era um Sam Kieth em início de carreira, trabalhando e aprendendo a desenhar em um gibi que ninguém acreditava que ia passar da oitava edição (se chegasse lá). Era um Sam Kieth experimentando e ali,  pelo menos nas quatro primeiras edições, era um Sam Kieth experimentando ser Bernie Wrightson.

As formas dos personagens, a estrutura de desenho de suas cabeças e corpos tinha um bocado de Bernie. As sombras do cenário, as molduras. Às vezes eu fico imaginando como teria sido se aquelas edições tivessem sido desenhadas pelo Bernie de verdade. O próprio Sam Kieth admitia que Bernie e o Frank Frazetta estavam entre suas influências. Frazetta que, por sua vez,  também tinha um bocado a ver com os rumos que Bernie deu ao próprio traço.

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Escuto muito aquela expressão grosseira que o próprio Moore gravou na cultura dos comics: “revirar a lixeira dos outros”, que pode até ser apropriada pra certas situações, mas que é tão injusta com outras. Essa dança de traços e tramas, esse vínculo entre EC Comics, Frazetta, Bernie, Kieth, Moore, Gaiman e personagens e histórias. Tudo girando em torno das revistinhas, das Houses of Mistery e Houses of Secrets e Swamp Things e  Sandman e tantas e tantas outras.

Bernie morreu e, enquanto lia o obituário, imaginava como a vida dele, ainda que tão distante, tinha se entremeado com a minha e tantas outras por causa da alegria por essas revistinhas. Quando alguém se vai, podemos listar suas obras, suas ações, mas tem algo único que cada um guarda pra si, uma memória cheia de significados que une as pessoas das maneiras mais improváveis. Algo que ainda vai prosseguir conosco por um bom tempo.

Bom trabalho, Bernie.

Abraços.

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