[Parlatório] Daniel Saks

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Em 2015, o fã apaixonado, Daniel Saks assumiu a missão de republicar as grandes revistas de terror Calafrio e Mestres do Terror, publicadas nos anos 1980 (com seu fim em 93) pela editora do Rodolfo Zalla, a D-Arte. Conversei com ele sobre como isso tudo começou, as consequências atuais da empreitada e mais umas coisinhas. Dá um bizu!

Conte um pouco sobre o processo de revitalização das revistas. Quando teve a ideia?

A história tem alguns detalhes que eu esperava escrever na revista, então, vou lhe entregar a odisseia para você publicar em primeira mão. Foi uma série de coincidências. Sou um apaixonado pelo quadrinho nacional, da forma que era feito (semi) profissionalmente entre as décadas de 1950 e 1990, e lançado em revistas baratas, dando opção para o leitor colecionar e experimentar vários estilos artísticos. Isso praticamente sumiu, não há mais opções. Eu sempre quis fazer um fanzine e se fosse editar algo seria nos moldes do colecionismo.

No dia 11 de Julho de 2015 estava em São Paulo e o Zalla (Rodolfo Zalla, desenhista de quadrinhos argentino radicado no Brasil) morava perto da minha tia. Fui até a casa dele pedir um autógrafo e ver se ele tinha a edição 58 da série “Edição de Colecionador” que lançou com o Cluq (Clube dos Quadrinhos), a única que me faltava. Consegui os dois e mais alguns brindes.

O mestre foi muito simpático, me recebeu bem, falava muito palavrão e logo depois o Osvaldo Talo apareceu para enriquecer a visita. Ele comentou que tinha cerca de 700 páginas inéditas de HQs de terror e alguns faroestes, mas não tinha mais pique para publicar. Ele achava que somente eu havia comprado todas as edições de colecionador. Falei com ele sobre o Fábio Chibilski, meu amigo, que tem a editora Cultura e Quadrinhos em Ponta Grossa-PR e que publicava na ocasião três títulos de horror (Stigma, Contos Sinistros e a nova Spektro) e o faroeste Calibre 45. Eu tinha uma ideia de quanto o Fábio estava oferecendo por página para os artistas e mencionei o valor. O Zalla apenas comentou que era um valor razoável, mas menor do que estava acostumado a pagar. Ele comentou que um ex-funcionário da editora On-Line estava querendo trazer a CALAFRIO com distribuição em bancas de volta, mas que poderia negociar o título MESTRES DO TERROR com o Fábio.

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Daniel, Rodolfo Zalla e Osvaldo Talo

No dia 17 de Agosto passei novamente na casa do Zalla. O negócio da Calafrio havia “micado” e então conversaria com o Fábio. Pus os dois em contato por telefone e fui embora (no dia seguinte apresentaria um Artigo na Jornadas Internacionais de Quadrinhos na ECA-USP). De noite, o Fábio me ligou e falou, “Daniel, fechei os dois títulos com o Zalla, mas eu não toco essa sozinho. Você topa ser o editor?”.

Eu sabia que a maior dificuldade do Fábio para isso era financeira. Fiquei muito feliz e honrado e topei, desde que tivéssemos uma conversa sobre como seria esse trabalho e com o que poderíamos contar, pois não tinha nenhuma experiência no ramo editorial, apenas colecionava gibis e havia escrito alguns artigos e matérias sobre quadrinhos. Me encontrei com o Fábio duas vezes e combinamos uma missão para a casa do Zalla num final de semana para assinarmos o contrato e adquirir páginas para o lançamento. A viagem foi no dia 4 de outubro, eu patrocinei quase tudo.

A partir da assinatura, foi uma corrida para digitalizar e preparar o material. O Zalla queria corrigir uma capa, comprei papel, o Fábio comprou tinta e conseguiu mais algumas HQs com colaboradores dele. Eu escrevi as matérias, o editorial e fizemos o lançamento das duas no dia 26 de novembro, na Gibiteca de Curitiba.

Então, fui o homem errado na hora certa, e com os dois títulos de horror longevos genuinamente nacionais nas mãos. Parece sonho de fã? É isso mesmo.

O que quer dizer com “editar algo nos moldes do colecionismo”?

Eu gosto de séries longas, com numeração, esse é o barato de colecionar gibis. Tudo o que é colecionado seriado tem mais valor de coleção. Respeito o mercado como está formatado, livros autorais… mas cadê o trabalho de editores para deixar as obras mais comerciáveis? Cadê as revistas mix que oferecem muitas opções de entretenimento para o leitor?

Alguém que ler a Calafrio e a Mestres não precisa comprar outra edição, mas terá um prazer enorme de ter todas as edições. E não vai enjoar, garanto.

E o que quer dizer exatamente com “não há mais opções”? O cenário nacional está rico em artistas, não?

O Mercado está rico de artistas, mas de revistas está paupérrimo. Quem quer experimentar gibis seriados hoje tem poucas opções, são as da Bonelli-Mythos, super-heróis e Turma da Mônica da Panini e Disney-Abril, além dos mangás e a MAD. Isso tudo não deve ser negligenciado, mas cadê uma opção nacional além do Mauricio de Sousa? O formato livro de publicação é louvável, mas uma edição dessas normalmente oferece poucas opções de autores e é questionável se um leitor de primeira viagem começa a colecionar quadrinhos a partir de uma edição autoral.

Quais foram as dificuldades para efetivar o projeto?

A logística toda foi a parte mais difícil. A negociação com o Zalla foi muito boa, ele adorou a ideia e deu muitos conselhos. Pediu algumas coisas bem fáceis também, sem stress. Como no começo havia uma expectativa maior e a impressão seria toda manual na casa do Fábio, fiquei um pouco chateado pelo ritmo lento de impressão, mas as vendas também não foram boas.

A decisão do preço foi difícil, pois eu venderia para lojas e o Fábio pela internet. Por uma questão de custo e estrutura, não há como trabalhar com consignação até hoje, isso já barra muitas possibilidades de pontos de vendas.

A divulgação foi eletrônica pelo Fábio e no tête à tête comigo (até o final do ano passado não tinha nem conta de facebook). Tudo foi, e ainda é, muito amador.

Houve momentos de grande desacordo entre o Fábio e eu, então após as segundas edições de cada um dos títulos o Fábio deixou a sociedade, continuou como colaborador (afinal, ele entende do mercado artístico) e eu passei a imprimir tiragem maior em gráficas.

O Brasil já foi muito rico em publicação de quadrinhos de terror. De todos os gibis de terror que já tivemos, por que esses dois?

Eram dois títulos que não podiam desaparecer. Digo a todos que o fato de eu editar as revistas primeiro foi uma honra, virou um prazer e com a morte do Zalla virou uma responsabilidade. Também por causa do contato com o Zalla e o Fábio já publicava os demais, aí tivemos que estudar a diferença entre cada um deles.

Não escondo também que sempre achei essas duas revistas as duas melhores de toda a história dos quadrinhos nacionais, afinal, não eram só os quadrinhos dos melhores artistas em atividade no Brasil; tinha as inigualáveis matérias do Sampaio; havia o trabalho editorial do Reinaldo de Oliveira e sua seção de cartas também era ímpar; o Reinaldo é o meu grande ídolo na imprensa brasileira. E as capas então? Alguém lembra de uma ruim? Calafrio e Mestres do Terror eram próximas da perfeição.

Mesmo com o Fábio não sendo mais sócio dos títulos, eu mantenho o selo Ink & Blood Comics para que a editora dele seja a editora nacional com o maior número de títulos do gênero em circulação.

Assim que as vendas estiverem melhores e eu puder contar com colaboradores pagos, posso relançar um título como os da La Selva e Outubro. Mais simples e baratos.

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Quais as maiores dificuldades que a revista tem enfrentado?

Com toda certeza são financeiras. As vendas não estão acontecendo, apenas as edições iniciais de cada título se pagaram até agora. Cada número lançado me deu um prejuízo de R$ 300 a R$ 700 após seis meses do lançamento.

Segundo é conseguir HQs, pois os artistas estão muito voltados para o autoral. Nas revistas, só posso publicar HQs curtas. Todas as HQs serão pagas de alguma forma e muitos artistas me oferecem de graça as HQs, e quando digo que vou pagar, eles acham muito pouco! Eu sei que é pouco, mas é muito mais do que estou ganhando, pois até agora estou no vermelho.

Por sorte, tenho tido a compreensão e colaboração de estrelas do mercado. Nesses casos, o material não é inédito, porém, de excelente qualidade. Felizmente esse pessoal aceita receber em revistas (minhas ou outras) e ninguém se ofende.

A morte do mestre Zalla também atrapalhou muito os planos para conseguir páginas do estúdio dele, a viúva ficou um tempo sem querer receber visitas, mesmo com o representante nomeado por ela. Recentemente o canal foi reaberto.

E quais sucessos?

Sem dúvida nenhuma os leitores e as lojas que estão adquirindo sem trabalhar com consignação. A distribuição nos pontos de vendas em diferentes cidades até agora se deve a um fator favorável, eu viajo muito a trabalho. Então, nas cidades e estradas onde passo, sempre paro e tento, com alguns dá certo.

Outro sucesso é poder dar continuidade às revistas e proceder com algumas inovações editoriais e comerciais. Minha meta é fazer uma edição parecida com o que a Mythos fez na Juiz Dredd Megazine, para mim a melhor revista em quadrinhos do milênio no Brasil.

Quais as perspectivas para futuras publicações e também o futuro da Calafrio e da Mestres?

O trabalho é amador e diminui o ritmo, pois eu não estava dando conta, além de perder horas de sono e dinheiro. Preciso que o projeto comece a se pagar para planejar os próximos passos. Provavelmente meu próximo projeto será algo com humor corporativo em tirinhas, com roteiros meus explorando flagrantes que observo no meu dia a dia no trabalho. Já tenho um desenhista imaginado para isso.

Opa, interessante. Tem uma data de publicação em mente?

Ainda não. No momento, está latente, em fase de idealização. No entanto seria algo para angariar um público não necessariamente leitor de quadrinhos. Uma edição para quem vive as situações corporativas. Eu até gostaria de apressar o projeto, pois acredito que teria vendas melhores que Calafrio e Mestres.

Qual região do país tem mostrado as melhores respostas de vendas da revista?

Tudo controladinho, segue ilustrado no quadro. Sete edições haviam sido lançadas até esta resposta. E não estão contadas as revistas que o meu ex-sócio vendeu, não tive controle algum sobre as vendas dele.

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Se analisarmos o quadro vamos notar que a logística é o principal fator. Moro no PR, é onde tenho mais lojas comprando por poder estar mais presente e rápido nelas. Em lojas é onde há desconto na venda, também a margem é maior para quem compra mais edições.

Uma coisa interessante é que após a edição 56 da Calafrio, as sondagens no NE aumentaram.

Você acha que existe algum fator específico relacionado a isso?

Acredito que foi a maior divulgação que essa edição teve nos sites de quadrinhos, revistas eletrônicas e Facebook. Agradeço a todos que ajudaram com a divulgação. O interessante é que essa edição é, de todas que lancei, a que está com as vendas mais lentas. Após três meses do lançamento foram menos de 50 edições. Isso não sei se se deve a crise econômica ou a sazonalidade de festas de final de ano e Carnaval.

Como é o processo de escolha das histórias?

Eu recebo as HQs, roteiros ou HQs prontas. Dou preferência para histórias curtas e finalizadas. Confio ao Fábio a aceitação qualitativa da HQ, ele é o especialista nisso, além de ter mais contatos. Alguns roteiros legais envio para artistas dispostos a trabalhar e em prazo curto.

Um conselho a quem oferecer trabalhos: não se apresentem a mim com supersagas. Não há a menor chance de serem publicadas nas duas revistas. A proposta editorial é que um leitor, ao comprar a revista, tenha muitas atrações para se deleitar, ordenar sua satisfação e tudo isso pelo menor preço que eu puder cobrar dele.

E como tem sido o processo de resgate das histórias antigas? O acesso a elas tem sido fácil ou difícil?

O representante da viúva do Zalla me permitiu escolher HQs clássicas do estúdio D-Arte e republicá-las. Mesmo que ele não cobre, será pago o preço mínimo que os artistas recebem por página (o preço de republicação). O maior problema é que muito do material que o Zalla me vendeu como inédito, ou é remasterizado (como puderam conferir na origem da Zora), ou foi publicado nas edições de colecionador, ou ele simplesmente esqueceu.

Sob esse prisma, as HQs clássicas são as mais fáceis. Só há o impedimento de HQs que não foram produzidas pelo estúdio D-Arte, essas pertencem a seus autores. Eu adoraria publicar Colin, Colonnese, Mozart, Seabra, Rodval, entre muitos outros, mas ora esbarro no preço, ou no interesse dos herdeiros (o que não é necessariamente o caso dos citados).

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Arte de Flavio Colin

E quanto as histórias novas? O pessoal manda histórias pra você?

Sim, ainda vem pouco, mas sempre há alguém enviando algo. O Fábio tem mais acesso e exposição, assim ele volta e meia me oferece algo novo. No futuro quero contar com 90% de material novo e pouca seção nostalgia.

Algum projeto de publicar uma revista apenas com autores novos?

Já há a Contos Sinistros, do Fábio, para amadores, mas a Calafrio e a Mestres do Terror  estão lançando gente nova. Eu sou um consumidor de fanzines e alternativos e desde o começo quero trazer essa galera para as revistas.

Na reestreia de Calafrio #53 tivemos uma HQ muito bacana do Aroldo Pereira, sobre uma vampira que ataca os cartões postais de Curitiba, ficou muito bom. Na Mestres do Terror # 66 há a estreia do escritor Sérgio Mhais, do desenhista Rafael Feliczaki e o artista independente Raul Galli vai ter seu primeiro trabalho não autopublicado. Para a Calafrio #57 há um escritor e uma artista que também farão suas estreias. Muita gente nova, com novas propostas, e com a resposta positiva dos fãs eles vão continuar a colaboração.

O número 56 abre com um editorial que explica que, após um ano de publicação, o valor da revista se manteve o mesmo. Há ainda uma observação “reconheça, por favor, está difícil”. Achei um texto bastante sincero, uma maneira honesta de se dirigir ao leitor, algo que editoras maiores poderiam seguir como exemplo, e concordo plenamente que é algo que deva ser reconhecido e, inclusive, parabenizado. É um grande feito. Dito isto, tenho duas perguntas: Qual a sua visão sobre os valores recentes de gibis publicados no Brasil e o investimento das editorias em materiais de capa dura, tamanho e material diferenciado, que tem influenciado nos valores das publicações? E também, como tem sido a sua relação com a base de fãs da revista?

Paulo, uma resposta de cada vez. As revistas em quadrinhos, inclusive as minhas, estão muito caras. Hoje ler e/ou colecionar quadrinhos é um hobby caro no Brasil e em boa parte do mundo. Se alguém merece parabéns neste quesito é o editor Walter Klattu, da revista Mundo Paralelo. Ele publicou um time de primeira em 152 páginas no papel couché, formato magazine a R$ 8! Se ele tem lucro com essa empreitada, eu quero trabalhar para ele.

Infelizmente, acredito que até por causa do mercado direto americano, a indústria das HQs entrou num ciclo vicioso que resultou na configuração atual: baixas tiragens, baixo ou nenhum pagamento de profissionais, leitores velhos e preços altos. Isso evidencia um mercado pobre e que ainda não chegou no seu equilíbrio, ainda deve estar em processo de diminuição. Sei que há muitos argumentos contra o que estou lhe respondendo, mas que me provem então que a indústria nacional de quadrinhos é saudável. E que não entendam programas de incentivo governamental como opção, isso é um “publique para ninguém ler”. Para quem não sabe, nos anos 1950 as distribuidoras já adiantavam metade do pagamento da tiragem das revistas às editoras, quadrinhos remunerava, as tiragens estavam na casa das dezenas de milhar. O império que Abril é hoje foi alicerçado sobre quadrinhos.

Com a baixa venda, as editoras aumentam as margens, oferecendo um luxo nas edições. Nessa onda, vem o formato capa dura, papel e colorido especial em HQs divertidas que eram publicadas em formatinhos no passado, ou material inferior a isso. Os custos dessas edições não são tão maiores na proporção dos preços de venda em relação às edições populares.

Eu vejo essa opção de mercado uma aberração, uma forma de extorquir os poucos leitores que ainda restam e obrigatoriamente saudosistas. Quem arriscaria conhecer American Flagg, Dreadstar e Gilbert Hernandez pelos preços que Mythos e Veneta praticam? Material ótimo, sem dúvida, mas se um filho meu falar que vai comprar um gibi de R$ 80, vai levar uma bronca. Se vocês querem essas e outras edições, aguardem, volta e meia aparecem nos sebos ou em promoções de lojas eletrônicas.

Eu posso até morder a língua e apelar para alguma publicação mais sofisticada, mas sei que não vou conquistar novos leitores com isso. Gostaria de um ver movimento de todos os leitores do país boicotarem qualquer edição acima de R$ 20. Com certeza haverá uma mudança do mercado, e duvido que ele piore.

Eu tenho o compromisso com os leitores de diminuir o preço das revistas em primeiro passo e remunerar melhor os artistas no segundo, assim que as vendas forem suficientes (entre 200 e 300 edições escoadas em dois meses do lançamento já me permitirá algo assim), ou eu conseguir vender publicidade nas revistas. No caso da publicidade, cada página vendida aumentará o tamanho da revista em quatro páginas sem aumento de preço de capa.

O projeto não tem fins lucrativos, todo pagamento que quero é uma edição a mais na minha coleção, todo o caixa que eu venha a gerar será revertido e esgotado em novas edições.

Sobre o contato com os fãs, é a minha maior preocupação e prazer com esse trabalho, todos os e-mails e comunicações são respondidos, mas nem todos cabem nas revistas, então, as respostas vão eletrônicas. Eu quero muito comentários, sugestões e críticas, muitas delas já foram atendidas nas revistas. As duas revistas em sua fase clássica já tinham a proposta de conversar com o leitor, eu apenas tento aumentar isto. Na Mestres do Terror há uma coluna específica de transparência com os leitores, contando todas as minhas dificuldades. Que o leitor sinta a honestidade do editor para com eles.

Mas, nesse caso que você aponta, de esperar uma promoção em lojas eletrônicas ou esperar as edições chegarem em sebo, acha mesmo que é uma prática saudável? Os lojistas, livrarias e as próprias editoras não sofreriam com isso? Esperar pra cair no sebo não ajuda o material a girar.

Acho realmente triste, mas seria mais saudável para o leitor. Em economia temos o princípio da sociedade que diz que quanto mais você comprar, mais satisfeito estará. No entanto o que impede a satisfação máxima é a restrição orçamentária. O leitor vai ter que optar se compra cinco edições que custam R$ 20 ou uma que custa R$ 100, dada essa restrição orçamentária.

Quando pago uma edição muito cara, e poucos meses depois ela é vendida novinha num site com 40% a 60% de desconto, me sinto um otário. Então acho que os editores devem trabalhar mais para aumentar suas tiragens e vendas, e os leitores podem valorizar mais seu dinheiro. É um absurdo comprar gibi por preços extorsivos. Enquanto os editores estiverem lucrando mesmo com tiragens mínimas, eles vão se sentir confortáveis com a prática de extorquir os leitores. Nenhuma diferença com o governo, cobra muito caro de poucos e oferece muito pouco para os mesmos.

O público tem pedido a republicação de histórias específicas?

Ainda não aconteceu, mas já pediram por autores. Um astro do mercado americano me pediu para desenvolver uma graphic novel remasterizando uma HQ publicada na fase clássica, mas um dos autores originais não concordou.

Muitos já pediram o retorno da “Arte dos Leitores”, mas até agora apenas uma leitora enviou, e ela estreará como cartunista já na Calafrio #57.

Alguns autores brasileiros ainda investem no gênero em seus trabalhos autorais, como o Shiko, Samantha Flôor, Juscelino Neco e Bianca Pinheiro. Baseado no seu contato com os fãs e as observações sobre o cenário atual das HQs brasileiras diante da publicação das revistas, você acha que o terror é um gênero tímido no cenário de quadrinhos nacionais? Pensa que pode voltar a ser como era nas décadas de 60 e 70?

Temo que a indústria nacional não voltará a ser como nas décadas de 1960 e 70. O autoral e a internet é a forma viável dessa brasileirada fantástica mostrar seus trabalhos. No entanto, é difícil imaginar que eles vão se sustentar dessa maneira. Eu adoraria publicar todos esses mencionados, mas tenho vergonha do que posso oferecer no momento para isso. Imagina uma HQ curta da Dora na Calafrio? Seria maravilhoso. Vou conversar com minha amiga Bianca.

Sobre o terror especificamente, os gostos da população mudam, acho que hoje estamos numa fase de alta do gênero. Só que é difícil imaginar o retorno dos números e produção dos quadrinhos de meio século atrás. Há muitas opções além dos quadrinhos para o entretenimento do público, as HQs perdem para videogames, internet e TV a cabo. Eu ouvi que o blockbuster Walking Dead, da editora HQM, tem a tiragem de três mil exemplares somente! Mas ouvi que eram trinta mil também. Aposto que a primeira afirmação é a correta.

Alguma chance de vermos republicações de histórias que saíam em outras revistas, como o excelente Hotel Nicanor, do Flávio Colin, ou histórias do Zé do Caixão?

Zé do Caixão está na edição 66 de Mestres do Terror, numa HQ do próprio Mojica e desenhada por Laudo Ferreira, já publicada em 2014. Flávio Colin é o meu artista supremo, mas além do material original dele estar perdido por aí, ouvi que os herdeiros cobram caro pela permissão de publicação. Por enquanto, o que posso prometer aos leitores são HQs do estúdio D-ARTE e alguns outros artistas clássicos com quem travo contato diretamente.

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Acredito que, como a maioria dos fã de terror, você também assista muitos filmes do gênero. Quais as maiores obras do terror, pra você?

Eu assisto pouco, por incrível que pareça, também não entendo de cinema, então vou apenas listar poucas coisas que gostei. Os filmes dos anos 1980 como Hora do Espanto e O Lobisomem Americano em Londres estão entre os meus favoritos. Assisto filmes do Vincent Price com minha filha, os filmes do George Romero são divertidos e me ligo no trash sessentista americano e nacional. Gosto da trilogia do Zé do Caixão principalmente pela força do personagem. Os filmes do Ivan Cardoso nos anos 1980 me agradaram bastante e recentemente assisti três do Rodrigo Aragão que me fascinaram pelo enredo, aquilo é Brasil no seu melhor autoentendimento, é entretenimento puro. Odiei as séries Sexta-Feira 13 e Hora do Pesadelo (das quais só assisti os primeiros filmes), outras séries do tipo nem arrisquei conhecer.

Já na TV curto demais o seriado American Horror Story, algumas temporadas são de um refinamento ímpar nos roteiros, além de um elenco fantástico. Walking Dead eu assisto, mas não é horror, é um drama com zumbis. O antigo seriado Tales From the Crypt que adaptava os quadrinhos da EC, era muito bom, pena que é difícil de encontrar hoje em dia.

Quais as HQs de terror recentes mais legais que você leu?

A Marsupial lançou recentemente um álbum do Laudo compilando a quadrinização dos dois primeiros filmes da trilogia do Zé do Caixão. Eu já tinha a adaptação do primeiro filme publicada pela Nova Sampa nos anos 1990. Na Gibicon de 2012, o Laudo me contou que tinha o segundo filme quadrinizado. A HQ publicada em Mestres do Terror #66 foi resultado de eu tê-lo procurado para publicar a adaptação do segundo filme numa edição especial de Calafrio, daí ele me contou do livro que rapidamente comprei na pré-venda. Ele então me ofereceu a HQ de oito páginas publicada na edição.

Sou um apaixonado por história, e gostei do tema de Vampiro Americano, não li tudo, mas o que li me entreteve.

Adorava a publicação de Boca do Inferno, da editora SM/Júpiter2 na década passada. Gibi baratinho, várias HQs divertidas e com uma proposta honesta de trazer uma popularização dos quadrinhos nacionais. Pena que não durou.

Recentemente comprei a edição Contos do Absurdo, da Publigibi. Proposta ousada de distribuição, bons artistas e preço dentro da realidade. Nada demais, nada decepcionante, apenas diversão como todo gibi deve ser. Torço para que vingue.

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Até agora só conferi a arte, não li ainda, mas a coleção Aerolitos são revistas muito bonitas, deve ter coisa interessante dentro.

Uma grande satisfação foi a revista independente Weird Comix, do paraense Fábio Vermelho. Não é exatamente horror, mas se utiliza dele, eu gostei. O porém é que é toda em inglês.

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