[Cuba Liber] 5:20

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Naquele tempo…

Em junho de 1989, você podia entrar em uma banquinha de revistas ou procurar nos expositores dos supermercados e topar com a edição número 72 de O Incrível Hulk.

A revista da editora Abril trazia três histórias. Bem no meio do gibi, entre o John Byrne barbarizando com Bruce Banner separado do Hulk e a estreia dos inesquecíveis Vingadores da Costa Oeste, estava a primeira história dos Novos Mutantes desenhada pelo Bill Sienkiewicz.

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Danielle Moonstar, a coberta, o quadriculado, vermelho, branco, o urso. Na redução pro formatinho da época, devia ter um monte de sutilezas da arte que se perdia. O texto já deixava claro que o urso era uma ameaça, mas a arte potencializava isso de um jeito que vi poucas vezes.

O Bill compunha umas páginas muito loucas, usava hachuras e grafismos de um jeito que eu nunca tinha visto. Depois eu ia aprender que tinha Neal Adams ali, depois eu ia enxergar um pouco de Toppi ali, mas naquele tempo eu olhava aquilo e não entendia o que via. Bill desenhava as pessoas de um jeito que eu nunca tinha visto, construía um espaço que eu não conseguia dimensionar, me empurrava pra uma percepção diferente. Nossa. Sei que isso é tudo muito subjetivo, mas também sei que se não fosse a arte dele provavelmente eu nunca ia lembrar dessa história.

(“Mas eles continuam índios!”, dizia horrorizada Rahne Sinclair. O roteiro era do Chris Claremont.)

Depois veio a dobradinha com Frank Miller. Tudo  publicado pela editora Abril.

Em março de 1988, Demolidor (Amor & Guerra), o segundo título da Série Graphic Novel. Ainda em 1988, em quatro edições entre agosto e novembro; depois como encadernada, em 1989, a Elektra Assassina.

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O Moby Dick que o Bill fez pra Classics Illustrated saiu aqui em novembro de  1990, poucos meses depois da edição original norte-americana, pela First Comics.

Moby Dick é fascinante. É mais um livro ilustrado do que uma história em quadrinhos, talvez? Porque o livro original é aquele tijolo pesado, tipo as 656 páginas da edição maravilhosa da saudosa Cosac, e daí você tem esse gibi de 48 páginas. 48 páginas é nada. Mas. Se a gente deixa o texto pra lá e se deixa levar pelas ilustrações, é meio que viajar por um videoclipe fragmentado de um jeito muito estranho. Sensação de um um trailer silencioso, agitado e profundo com os fragmentos de um filme que parece incrível demais. Mas não é nada disso de filme. Não tem movimento nenhum ali. São essas ilustrações. Só as ilustrações. E quando você lê o texto, tudo muda, o ritmo desordenado de pairar pelas páginas desacelera, desaparece. Você entra nos trilhos, na ordem. E as caixas de textos ganham outra função, tipo uma grade de jaula ou uma ponte suspensa que nos mantém seguros diante de algo imprevisível e agitado, as páginas ilustradas que ficam lá atrás, lá embaixo, visíveis demais pra gente ignorar. Acho que existe uma tensão, uma contradição entre as imagens e as palavras da Moby Dick de Bill Sienkiewicz e isso é muito bom.

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Eu tenho uma consideração especial pelo final da década de 1980. Chiclete com Banana e as revistas da Circo Editorial mostraram a cara de um quadrinho nacional que estava em sintonia com uma mudança (?) que parecia acontecer também nos gibis de super-heróis.

Se você tinha crescido acompanhando todos gibis de supers que a Editora Abril monopolizava desde 1984, de repente topava com O Cavaleiro das Trevas, Watchmen e mais uma série de lançamentos que exploravam formatos de minisséries, álbuns, coleções que sugeriam que tinha coisa nova na parada. E talvez tivesse mesmo. Um novo jeito de pensar, de fazer quadrinhos,  aparecendo nas páginas do Monstro do Pântano e da Chiclete com Banana.

Mas não era só isso. Penso que naquele período houve uma produção e interesse por quadrinhos relativamente diferente do que tinha se visto até então. Apareciam matérias com destaque nos jornais, havia espaço pra falar de quadrinhos na programação da TV Gazeta. A primeira edição do Troféu HQMix aconteceu em 1989 e a primeira Bienal de Quadrinhos do Rio de Janeiro foi em 1991.

(Evidentemente, essa minha consideração especial por esse final do dos anos 80 é principalmente porque eu estava lá. Era um garoto deslumbrado com tudo aquilo, com as revistas, as histórias, os desenhos e não era o único.)

Sei que, lá nos EUA, depois de terminar Demolidor e Elektra e antes de fazer Moby Dick, Bill Sienkiewicz escreveu e ilustrou uma série de 4 partes chamada Stray Toasters pela Epic Comics (uma linha da Marvel), em 1988. Esse material nunca foi publicado aqui.

Como se traduz Stray Toasters?

Torradeiras Perdidas?

Torradeiras Dispersas?

Torradeiras Hétero?

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Stray Toasters é uma história de detetives. Há uma série de crimes e precisamos descobrir quem é o assassino e detê-lo. A história apresenta diversos clichês, há coisas mal explicadas, os personagens são caricatos e estranhos.

Agora preste atenção nas duas primeiras páginas.

Página 1: O diabo sai de férias. A família pede pra lembrar de trazer lembrancinhas. Ele acha que esqueceu alguma coisa.

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Página 2: Se fosse um filme, a câmera se afastaria de um super close com um zoom out lento e circular revelando uma torradeira. Se fosse um filme, ouviríamos em off a voz de uma mulher, terapeuta, dando conselhos a sua paciente sobre como lidar com uma relação emocionalmente nociva.

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Essas duas páginas são vistas lado a lado pelo leitor que inicia sua leitura.

A arte de Bill é visualmente gritante. Suas cores, texturas, colagens. Entre esses elementos, o próprio texto,  a escolha das figuras e cenas representadas. Tudo que ele coloca na página, todas essas coisas contrastam, tensionam, incomodam e arrebatam.

O contraste está em diversas dimensões, reforçando ideias. No layout, em uma página uma única imagem maior do demônio, na outra uma sequência de 16 imagens menores de uma torradeira. O discurso afetuoso da família, as recomendações profissionalmente racionais e distantes da terapeuta. Um quadro, vários quadros, o  extraordinário fabuloso, o cotidiano sóbrio. Contraste, desconexão.

Ao mesmo tempo, as duas páginas insinuam movimento, tanto no retrato do personagem avançando em uma revoada de cartões postais quanto na variação dos enquadramentos da torradeira. Ao mesmo tempo, a proximidade carinhosa da família e a metodologia cautelosa da psicologia giram de maneiras diferentes em torno do mesmo centro de intimidade e afetos.

Parte da potência de Bill está em saber trabalhar esses contrastes, não só plasticamente, mas também no humor desconfortável com que, por exemplo, a caricata família do diabo contextualiza a frase “me traz uns bichinhos pra torturar, pai…”.

Há uma tensão entre clichês, caricaturas e piadas e a seriedade dos temas: violência contra a mulher, crianças abusadas e traumatizadas, personagens emocionalmente lesados, laços familiares cheios de sentimentos e ressentimentos. Um círculo que é um triângulo.

Visualmente, Stray Toasters tem muito a ver com Elektra AssassinaDemolidor e Moby Dick. Um tratamento gráfico das ilustrações bem distinto, marcado por metáforas ou trocadilhos visuais, paleta de cores intensas, variação absurda da composição das páginas, das técnicas e estilos de arte dentro de uma mesma sequência. Por exemplo:

Dá pra dizer que é muita pirotecnia pra pouca história. Mas também dá pra perceber que o importante aqui não é a “história”.

Não é mais difícil entender o que acontece entre Todd, o doutor Montana Violet, Dhalia, Egon e Abby do que perceber que o “diferencial” da obra está justamente no potencial anárquico das tensões e contrastes que Bill tira de cores, linhas, formas, letras e significados.

Não é a “história”, não é a descrição de acontecimentos fantásticos ou de personagens caricatos que importa, mas o modo como essas materialidades veiculam a intensidade de afetos marcados por contradições profundas.

Li recentemente Stray Toasters e fiquei imaginando como teria sido se tivesse sido publicada aqui no Brasil nos anos 80. Quero dizer, fico imaginando como eu teria lido esse gibi lá naquele tempo. Tinha toda uma galera que fazia quadrinhos “ilustrados”, “pintados”, de encher os olhos.

Mas acho que foi o Bill um dos mais sem medo de pirar, de se mostrar no papel, de se desprender do realismo, de flertar despudoradamente com o desbunde visual e usá-lo pra misturar coisas bobas e coisas sérias de um jeito único.

Daquelas coisas que a gente não esquece.

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