[Vem Comigo] O Outro Lado da Bola

Saiu um raro olhar em quadrinhos para o futebol, esporte fundamental no dia a dia de muitos brasileiros e poucas vezes tema na ficção. O Outro Lado da Bola narra a história do craque de um time muito popular que assume a homossexualidade.

Um papo que sempre levo com outros amigos que curtem futebol é da falta de boas histórias ficcionais com o LUDOPÉDIO. De vez em quando aparece um livro tipo O Paraíso É Bem Bacana, do André Sant’Anna (Companhia das Letras, 2006) ou um filme do naipe do Linha de Passe, do Walter Salles (2008) ou Boleiros – Era Uma Vez o Futebol, de Ugo Giorgetti (1998). Independentemente de curtir ou não o futebol (uma das três pragas da nação, disse Macunaíma, além do bicho-do-café e de Jiguê a lagarta-rosada), é inegável o valor de elemento estruturante na sociedade brasileira. É como se parte importante daquilo que forma o Brasil não fosse falado nunca pela ficção.

[aliás, a telenovela é outro desses eixos sociais brasileiros quase sempre esquecidos e é isso que gosto tanto em Sabor Brasilis, quadrinho de Pablo Casado, Hector Lima, Felipe Cunha e George Schall (Zarabatana, 2013)]

Zé Carioca. Arte de Ivan Saidenberg

Claro, há Pelezinho (destaco os magistralmente ilustrados por José Márcio Nicolosi), Ronaldinho Gaúcho e Neymar Jr, todos da Mauricio de Sousa Produções (além da turminha também bater uma bola); há as histórias do Zé Carioca e do ESQUADRÃO BRIOSO da Vila Xurupita (e ninguém vende a camiseta do time!); o mangá Super Campeões, entre outros (em matéria para o Universo HQ, Marcus Ramone faz um bom apanhado dos quadrinhos de futebol).

Talvez meu lance favorito do futebol nos quadrinhos seja mesmo Marcelo Quintanilha, com histórias do tema tanto em Sábado dos Meus Amores (Conrad, 2009) quanto em Almas Públicas (Conrad, 2011) e no recente Luzes de Niterói (Veneta, 2019). Mas, diante do valor que o esporte tem no Brasil, essa produção ainda é bastante tímida.

O que me parece difícil de resolver na ficção sobre futebol é que o interesse pelo esporte vem da emoção instantânea: o segundo precioso, a concentração no agora, o lance decisivo – e “se tivesse tocado em vez de chutar?”. O futebol ilustra o imprevisível com algumas regras e suor.

Não há como manter uma estrutura narrativa tradicional (em três atos e superação no fim) com o futebol que seja crível, porque nenhum jogador resolve uma partida quando quer (nem Zidane). O jogo é uma aposta contra o bom-senso, é o levantar de toda esperança, UMA CAIXINHA DE SURPRESAS e tal. Já a narrativa é o construto de um pensamento que se elabora e se desenvolve, com as ações dos personagens programadas para, de algum modo ou de outro, ahn, agirem. Os tempos diferem, os métodos são outros. Mas o que sobra então, como opção no interesse do crível nas histórias com o futebol?

Tudo que cerca o parêntese que é a partida, aquilo que veio e aquilo que virá: repercussão, bastidores, interesses, negociatas. Não há como esquecer que, a despeito de todos os 90 minutos de emoção do torcedor, há horas de espancamentos entre torcedores, vendas milionárias de jogadores para lavagem de dinheiro, acertos funestos, maus-tratos para atletas sem fama e por aí vai.

O Outro Lado da Bola, de Alvaro Campos, Alê Braga e Jean Diaz (Record, 2018) acerta justamente aí. Se propõe a contar a história que acontece ao redor do campo, e não dentro dele. A arte de Jean Diaz pende para o naturalismo acadêmico e compõem cenas bastante interessantes, embora, algumas vezes, falte dinâmica.

O tema é simples: e se o principal jogador de um dos maiores times do Brasil (apesar de usar outro nome, sei claramente se tratar do todo-poderoso Corinthians) se revelasse gay?

Isto é fatual: não há, em 2019, nenhum atleta profissional de futebol de grande projeção no Brasil que tenha assumido a homossexualidade. Seria muito ingênuo imaginar que nenhum daqueles que vemos em campo sejam todos heterossexuais. Isso é o que se pode chamar de ambiente pouco (ou nada) propício para que homossexuais se exponham.

O livro especula as consequências para torcidas organizadas, patrocínios, mídia nacional e internacional dessa declaração em rede nacional do personagem Cris (motivado pelo assassinato do namorado por homofobia). E aí quase tudo circula em conversas com diversos tipos de poderes. A declaração de Cris desorganiza todo o sistema do futebol, que até hoje proíbe a homossexualidade (não proíbe nas regras da International FA Board, mas na prática e na vivência desse ambiente nada propício).

Eu quase escrevi que, nesse livro, o futebol importa menos que os desdobramentos de preconceitos e de relações que se estabelecem a partir da frase fundadora do caos na narrativa, “Meu namorado”. Mas na verdade, o que Campos e Braga trazem é mais puro futebol como estrutura social, com violência, preconceito, ganância, machismo e, bem lá ao longe, o aclamado espírito esportivo. E também entendem a caixa de amplificação que são as redes de fama arrastadas pelos jogadores mais populares.

A trama se desenvolve de forma bem organizada e realista, com desdobramentos que não exigem muito do pacto ficcional. E a grande força de O Outro Lado da Bola é jogar luz em um tema complicado e conseguir lidar muito bem com ele. Acho que qualquer falha no livro fica menor diante da discussão que se impõe.

Não se sabe quando um grande craque do futebol brasileiro (ou mundial) vai assumir que tem um namorado, mas apostaria que, mesmo com todo o imprevisível que constituí o cerne do jogo de futebol, O Outro Lado da Bola vai acertar muito dos desdobramentos. Enquanto isso, a bola rola, as emoções nos inflamam e nada ainda se resolveu. Mas agora tem pelo menos um marco para a gente começar a conversa.

2 comentários em “[Vem Comigo] O Outro Lado da Bola

  1. Salve Lielson blz?
    Muito foda sua resenha!
    Também publiquei um zine sobre Futebol que tem a ver com todo esse universo que converge ao redor das quatro linhas.
    Nele há um texto sobre sobre o jogador Justin Fashanu, que relata sua a trajetória em se assumir homossexual em 1990.
    Se tiver afim, me passa seu email e mando o link pra vc dar uma olhada.

    Abraços!

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