[Com vocês] Guilherme Kroll escreve sobre A crise das livrarias e as mudanças no mercado editorial

Tira Retail Comic, de Norm Feuti 1) Antes e agora; 2) ANTES – Com licença, pode me dizer onde fica a livraria? – Qual delas? 3) AGORA – Com licença, pode me dizer onde fica a livraria? – Em 2011.

Um dos assuntos recorrentes de 2018 (e ainda neste 2019) é a bancarrota das grandes livrarias no Brasil, mais especificamente, Saraiva e Cultura. Convidamos o editor e sócio da Balão Editorial, Guilherme Kroll, uma das pessoas mais atentas ao mercado livreiro do Brasil que conheço, para falar pra gente sobre a infinita crise nas livrarias.

Então, vamos com ele:

A crise das livrarias e as mudanças no mercado editorial

por Guilherme Kroll

Muito se discute a atual crise nas maiores livrarias brasileiras. Depois de sucessivos atrasos em pagamentos, a Livraria Cultura entrou em recuperação judicial em 24 de outubro de 2018. Cerca de um mês depois, a Saraiva entrou com o mesmo pedido, acatado pela justiça. De lá pra cá, as duas gigantes estão trabalhando para saldar dívidas e tentar salvar suas respectivas operações. A recuperação judicial é um passo antes da concordata.

O cenário fica ainda mais tenebroso quando lembramos que pouco antes, em agosto de 2018, o Grupo Abril, que controla a maior distribuidora de revistas para bancas, a Total, também entrou em recuperação judicial. Nossa linha do tempo retroativa tem mais uma traulitada na distribuição de livros, com a recuperação judicial da Bookpartners, pedido em abril de 2018. A Bookpartners era dona da Superpedido, uma das maiores distribuidoras de livros do Brasil.

Livraria Cultura fechada no centro do Rio de Janeiro

Com quatro dos maiores agentes de distribuição de livros e revistas no Brasil em recuperação judicial no ano de 2018, não é errado dizer que o ano trouxe uma crise no mercado editorial. Especialmente, porque muitas editoras venderam livros e não receberam e, por conseguinte, não tiveram como pagar seus autores e fornecedores, em um terrível efeito dominó.

Mas então, compramos menos livros no Brasil em 2018? Por isso o varejo sofreu tanto?  A resposta é um sonoro “não”.  Segundo dados da Nielsen, a principal consultoria que mede vendas de livros no Brasil (bem como dados de outros mercados varejistas), o volume de exemplares vendidos cresceu 1,32%, os descontos ao consumidor caíram -4,14% e, com isso, ano fechou com faturamento crescendo acima da inflação com margem +4,6%.

Vendeu-se mais livros, faturou-se mais e ainda assim presenciamos essa quebradeira. O que está acontecendo?

Tenho algumas hipóteses para entender o presente cenário. A primeira é um cenário global de mudanças no varejo. Diversos mercados mostram que há uma crise global no varejo tradicional. Apesar das vendas pela internet existirem há mais de vinte anos, hoje podemos dizer que elas estão cada vez mais consolidadas e um comprador que precisa de uma geladeira tende a preferir pesquisar todas as opções de geladeira em uma pontocom do que ver as poucas opções da loja física. Se o leitor discordar, pode fazer um experimento empírico: vá até a principal rua de comércio da sua cidade e conte quantas lojas e quantos box fecharam ou estão para alugar.

Mas as pontocons das livrarias existem há muito tempo e já eram a principal forma de compra de livros no Brasil. O que mudou no cenário pra gerar a quebradeira?

Loja da Livraria Saraiva em shoping

Antes disso, cabe uma explicação rápida de como funciona o mercado livreiro. Ao contrário da maioria dos varejos, as livrarias pegam os produtos com as editoras e autores em regime de consignação e com desconto de 50%. Se vender, acertam o valor devido, se não, o produto fica com eles até vender ou até que devolvam, independente do estado em que o livro estiver. As editoras sempre aceitaram esse modelo, pois era a melhor forma de garantir exposição de seus livros. Temiam que se o sistema fosse só de compra, as livrarias só focariam os sucessos certos e a diversidade editorial morreria. Lógico que os motivos não são só nobres, as editoras queriam vender, e assim teriam mais chances.

No entanto, com o passar do tempo o modelo acabou sendo um estrangulamento do mercado, livrarias pediam condições cada vez melhores, como descontos maiores, frete por conta do editor, pagamentos em prazos maiores etc.

Em 2015 entra uma variável nessa equação que sacudiu as fundações do mercado editorial brasileiro: Amazon.com.br

Arte de Adrian Tomine para capa da revista New Yorker

A Amazon entra no mercado com dinheiro pra gastar, compra em vez de consignar, um sistema avançado de cadastro de livros, logística impecável e, principalmente, descontos exorbitantes para os leitores, com alguns livros chegando a ser vendidos quase sem margem de lucro.

No mundo todo, onde a Amazon entrou as pequenas livrarias sofreram demais, com ondas de quebras e dificuldades de concorrer com a gigante. Esperávamos o mesmo no Brasil, e de fato muitas pequenas sofreram um pouco, mas, mal ou bem, pelo menos no meio dos quadrinhos, vários pequenos lojistas têm conseguido sobreviver oferecendo curadoria, eventos, exclusividades, conversas com autores e dedicatórias. Já as grandes tentaram bater de frente com a Amazon no jogo dela: descontos, fortalecer o pontocom; tanto Saraiva quanto Cultura procuraram soluções em livros digitais (Lev e Kobo respectivamente). E aí, foram presas fáceis. No entanto, achávamos que Cultura e Saraiva eram grandes demais para quebrar.

Paralelamente a isso, muitas editoras procuraram canais alternativos de vendas, como participar institucionalmente de eventos pelo Brasil, ter suas próprias livrarias on-line, até mesmo usar os autores como pontos de venda em eventuais palestras, debates, feiras etc.

A maioria das grandes empresas opera jogando dívidas pra frente. Quando os compradores foram minguando e as dívidas se acumularam, elas se viram impossibilitadas de honrar seus compromissos. As dívidas se acumularam e, sem saída, acabaram entrando em recuperação judicial. Na verdade, elas não eram grandes demais para quebrar, eram grandes demais para serem salvas.

Outras livrarias souberam lidar melhor com os ventos da mudança. Martins Fontes continua firme e forte, com sua equipe competente de livreiros e usa o espaço da Amazon como um Market Place para si. Outras redes como Curitiba, Travessa e Leitura avançam de forma sólida, e focam em pontos de venda bem selecionados em lugares que não têm tanta concorrência. E livrarias pequenas como a Ugra e a Monstra dão show de como engajar leitores com autores e fornecer uma experiência cultural mais completa, com cursos, debates, autógrafos etc.

O novo cenário veio pra ficar, então é preciso evoluir, senão a morte será inevitável.

 

PS do editor: Indicamos também a edição especial do Cândido sobre a mesma questão.

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