
Nenhuma obra é capaz de escapar da sua janela de tempo, nada que um humano faça ou pense está solto da história (“A história, disse Stephen, é o pesadelo do qual tento acordar”). Rodrigo Okuyama, em Brasil.exe (Ugra Press, 2019), o número 18 da coleção Ugritos, mais que entender isso, transforma o presente em matéria de construção de sua história em quadrinhos.
É bastante difícil falar de Brasil.exe sem passar pelo enredo, mas é necessário não falar demais do que acontece ali, pois a obra se monta de maneira a colocar o leitor como peça ativa e responsável por montar o que se passou, como se fosse um ficciodetetive. Portanto, eu contar a trama, seria mostrar o que consegui apurar e tirar, de fato, a ação de investigação e montagem por parte dos leitores que ainda não leram a obra.
Conhecido na cena independente pelo seu cuidadoso trabalho com zines de dobraduras e formatos variados, além do traço dinâmico e versátil, Rodrigo Okuyama vai para algo mais simples no formato desta vez, mas bastante complexo na forma narrativa. A obra curta em quantidade de páginas e pequena em tamanho (20, em formato A6), se alonga conforme o leitor precisa passear por essas páginas e ir e voltar, ler e reler, atentar para detalhes e construir hipóteses do que está acontecendo.
(Aqui você pode ler uma ótima entrevista que Ramon Vitral fez com o Rodrigo)
Dá para dizer, sem entregar muito, que o autor trabalha com a tomada do poder da ultradireita, da intolerância e das relações familiares. Aliás, se as festas de família sempre foram aquela coisa do ritual do ódio discreto e da vergonha passiva, as eleições brasileiras avivaram o fogo das divergências entre sobrinhos sensatos e tios picaretas, e tornaram esse tipo de encontro um festival de brutalidade que faz os sádicos pedirem mais uma fatia de pavê para comer.
Com arte vetorizada, que alterna planos abertos e fechados e telas de troca de mensagem, Okuyama vai desenhando o Brasil em que uma simples festa de aniversário pode acabar muito mal.
A imagem abaixo não está no quadrinho, mas quis colocá-la aqui pro leitor ter ideia do estilo de arte do quadrinho.

Entre algumas entradas de leitura possíveis, quero me deter no título e na capa. A capa, se olhada cuidadosamente, além de um design bonito e elegante, lembra uma espécie de QR Code fraturado, como que já indicando as diversas fissuras na comunicação que as tecnologias da informação podem conceder a todos esses humanos que somos hoje. Não é possível ler esse signo, essa tecnologia não vai cumprir a promessa de te mostrar algo novo.
Já o título lembra nome de arquivo digital, em que o “.exe” é a extensão para executável (arquivo que deve ser entendido como programa pelo sistema operacional) e, mais que isso, os vírus de computador também são “.exe”. Ou seja, é como se se implantasse um vírus, que tomasse o controle do sistema operacional que é nossa vida e, de repente, estivéssemos rodando esse programa defasado, autoritário, obscurantista, abusivo e violento.
Ao terminar de ler o quadrinho, pensei que o “.exe” não era de “executável”, mas de “execução”.
Agradecimentos à Ugra Press pela oferta do material.
