[Vem Comigo] Mister No Especial 3

Existe um personagem da Bonelli que vive a maior parte de suas aventuras no Brasil. E em Mister No Especial 3 (Editora 85, 2019, tradução de Leonardo Campos) a história se passa no nordeste brasileiro e envolve uma figura histórica bastante conhecida.

O roteirista Guido Nolita, criador do personagem Mister No e responsável por essa edição junto do desenhista Roberto Diso, era o codinome adotado por Sergio Bonelli (ele mesmo, o nome da editora) para escrever roteiros, tipo com com esse personagem, Zagor e Tex.

As histórias do norte-americano Jerry Drake, mais conhecido como Mister No, se passam no Brasil, quase sempre na região amazônica, dada a paixão de Bonelli por essa parte do nosso país. Neste número, o cenário é Salvador, na Bahia e, na sequência, o sertão de Alagoas.

A história parte do fato histórico de que a cabeça decepada de Lampião ficou exposta no Museu Antropológico Estácio de Lima, na capital baiana, de 1938 até 1969, quando foi finalmente enterrada. A história trata do roubo do crânio do cangaceiro e de diversos interessados em ficar com ele.

A história é de trama bastante simples, em que o artefato desejado troca de mãos diversas vezes sempre ao redor do protagonista, mas o que me interessou nesse quadrinho é justamente os discursos em cada uma dessas passagens de posse da cabeça de Lampião: cada pessoa a quer por motivos diversos, porque vê no símbolo do líder cangaceiro a encarnação de ideias que acha necessários para o país. Um vê ele como um conservador que se uniu à polícia para atacar os comunistas da Coluna Prestes; outro como líder popular que pode estimular um levante; outro ainda como um cristão que lutava contra a feitiçaria das religiões africanas e, para alguns, Lampião era a encarnação do próprio diabo.

Todas essas visões discrepantes tem algum calço histórico em relatos das ações de Lampião e seu bando e reforçam o fascínio que essa figura ainda desperta em tanta gente.

Gosto particularmente da linha narrativa de um grande latifundiário que quer separar partes sertanejas do nordeste brasileiro e formar o país Novo Sertão. Leio ali a denúncia clara da exploração do camponês e do agricultor, me lembro do filme Cabra Marcado Para Morrer, e sinto que há, sim, o desejo de falar da situação precária dos trabalhadores mais pobres daquela região.

[insisto que assistam o fabuloso Cabra Marcado Para Morrer, de Eduardo Coutinho]

A história é de 1988, não sei o alinhamento político de Bonelli, nem quanto conhecia de nosso país além da admiração por suas partes mais aventureiras, mas essa é a impressão que a leitura me entregou. Quanto aos movimentos separatistas, vale comentar que eles sempre chamam mais atenção no sul brasileiro (mas tem movimentos separatistas em praticamente todos os estados da federação com diferentes graus de articulação).

Volto a dizer que não sei qual era exatamente a relação de Bonelli com o Brasil, mas pelo final da história (que não conto, fiquem tranquilos), acho que ele sabia direitinho como que as coisas funcionam por aqui.

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