[Vem comigo] Laerte, Muriel e o Minotauro

Nessas últimas semanas saiu um artigo meu sobre alguns quadrinhos da Laerte na fase “Manual do Minotauro” e queria compartilhar com vocês aqui.

O texto “O corpo em tiras: ficções e autoficções transgêneras nas tiras de Laerte Coutinho” comenta algumas personagens da autora, contemporâneas da famosa Muriel.

Tem mais ou menos 10 anos que o corpo da Laerte virou assunto público, como comento ali no texto. E foi logo nessa época de grande transformação que a encontrei pessoalmente, logo depois da famosa entrevista da Bravo! A busquei no Santos Dumont: ela vinha ao Rio de Janeiro para o lançamento de Muchacha (Quadrinhos na Cia., 2010). A musa saiu do avião decotada e de unhas vermelhas. Imaginem minha ansiedade, emoção, de vê-la assim, tão de perto. Eu já observava aquele corpo, admirava à distância.

A verdade é que sou voyeur da Laerte. Essa coisa de se fascinar por seus autores prediletos, se apaixonar por quem a gente admira. Agora fui rever o velho blog, lembrei de mais dois textos em que comento o corpo da autora, esse outro aqui e a apresentação que escrevi para o catálogo da Ocupação Laerte, no Itaú Cultural.

Acho que comecei a reparar nela depois que um amigo me mostrou a tira abaixo. Meu amigo tinha um crush na autora desde bem antes, e passou a tara pra mim.

A publicação mais recente é parte de um dossiê sobre trans/identidades. Muito feliz em participar de uma edição organizada pela pesquisadora Amara Moira, pelo meu colega Anselmo Alós e pelo professor da UFRGS Adauto Locatelli Tauffer. Dessa vez, tentei não dar muita bandeira, e decidi observar os corpos das personagens. Pra variar.

Fico muito feliz de publicar esse artigo no ano em que saiu a antologia do blog Manual do Minotauro.*

Esses dias um amigo comentou que não conseguia deixar de chamar o espaço das tiras da Laerte de “Piratas do Tietê”. E aí lembrei dessa cisma, essas aparentes duas fases da autora: a constelação de personagens da fase Piratas vs. o nonsense ou poesia da fase Manual.

A antologia recupera essa “nova” fase, reunindo as diversas séries, página a página. É possível perceber o conjunto dessa transformação. Talvez falte um pouco das conversas no blog, onde era interessante perceber as reações do público, e as respostas da autora. Relendo o blog para escrever o artigo, me deparei com a conversa em torno da figura de São Latércio, e a necessidade da autora explicar que era tudo ficção…

Tira publicada em 10/03/2021 :: https://www.laerte.art.br/manual-do-minotauro/

Folheando o livro, me lembro dos contextos em que muitas daquelas tiras apareceram. É um documento pesado desses quase 15 anos de um blog diário, mil e quinhentas tiras espalhadas em 416 páginas. Para lê-las, não é necessário ir de cabo a rabo: muitas das séries não são narrativas nem contínuas, e é possível passar a vida inteira pulando suas páginas.

Lembro de alguém ter comentado sobre a falta de legendas que indiquem quando foram publicadas – algo que não é costumeiro em livros de tiras, por sinal. Em charges, por outro lado, é importante dar o contexto histórico, mas essas tiras da Laerte, em sua maioria, se descolavam do tempo presente, indo abordar muito mais sonhos e delírios que atualidades (uma ou outra tira vai apontar para contextos conhecidos). Fiquei pensando se não é porque participamos daquelas publicações – lendo diariamente, indo comentar no blog – , que se sinta mais falta de mais um amparo histórico desse livro que documenta uma História que conhecemos tão de perto…

Esse gibizão** materializa esse corpo autoral gigante da Laerte, um livro enorme e plural. Boa parte das tiras que comento ali no artiguinho estão ali. Para a gente ler e reler.

As duas fases não são tão cismadas entre si, aliás. Existe certa leveza, desprendimento da narrativa encadeada e do foco nos personagens fixos. Mas o surreal e o nonsense fazem parte da Laerte desde sempre, desde ela menino desenhando animais em movimento. O que existe na fase Minotauro é uma condensação desses elementos poéticos no quadrinho; eles estavam lá desde cedo, talvez menos aparentes.

O tempo, as ideias, são mutantes mesmo, como os corpos. E cada vez que relemos cada uma dessas tiras, tanto nós como elas já mudaram umas dez vezes.

* Agradecemos à Companhia das Letras pelo envio do livro!

** Apesar de apoiar o uso elaborado pela autora Gabriela Güllich para se referir a gibis de tamanho e densidade maiores que as revistinhas, conhecidos como “romance gráfico”ou graphic novel, adoto, nesse caso, apenas como aumentativo de gibi.

Publicado por mckamiquase

Maria Clara Ramos Carneiro on ResearchGate https://orcid.org/0000-0003-2332-1109

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