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Coluna para difundir e motivar atividades Oulipo-oubapianas, em que todos possam participar enviando suas produções a partir das proposições.
Como professora, estou cada vez mais consciente da necessidade de estabelecer critérios bem definidos para pedir uma atividade ao aluno, sobretudo um trabalho de escrita. A redação “livre” acaba, por muitas vezes, desesperando aquele que não acredita no seu potencial criador – sobretudo dentro da instituição de ensino que estabelece critérios muitas vezes difusos, nada claros para quem está aprendendo. Os exercícios do Oulipo e do Oubapo podem também ser uma ferramenta pedagógica para aprender a ler e a escrever. Trago aqui alguns poucos exemplos.

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Edição especial de “Exercícios de Estilo” de Raymond Queneau, acrescentada com 33 estilos “desenhados, pintados e esculpidos por Carelman e 99 exercícios tipográficos de Massin”

No último sábado, ministrei uma disciplina em curso de especialização para professores de inglês da educação básica, na faculdade que trabalho (UNEB, Alagoinhas/BA). Os alunos trabalham por ali, no interior da Bahia ou de Sergipe, carga horária de 40 ou 60 horas (sic) em turmas com uma média de 40 alunos, uma a quatro horas por semana por turma. A disciplina era, grosso modo, “como ensinar literatura de língua estrangeira em sala de aula”.
A literatura no ensino é, em geral, um “prêmio”, o “sentido final” – não o final da história –, que só alguns benditos com bons olhos poderão alcançar. O quadrinho vem como “respiro”. E, como você já deve ter experimentado e eu também experimentei, quase ninguém sabe ler nem a figura, quanto mais os nós entre a palavra (textual ou o significado) e a imagem (o visível ou o significante). Vê-se que o próprio critério usado pelos educadores cria uma hierarquia entre o momento de tensão (o saber) e o de distensão (o prazer). Ora, há muito tempo sabemos serem esses dois momentos concomitantes.
As duas práticas parecem desconhecer por completo seus objetos: nem sempre o quadrinho é fácil, nem sempre a literatura é pesada.
Assim, me propus a pensar que abordagens poderíamos usar para dessacralizar o sentido do texto, voltar os olhos dos alunos para a sua forma, que também é imagem. Tanto demonstrar o prazer da literatura qunato o saber de uma narrativa em quadrinhos.
Entre outros textos e abordagens, levei para eles páginas dos Exercices in Style do Matt Madden e da tradução para o inglês dos Exercices de Style do Raymond Queneau.
O livro de Queneau (e o de Madden) começa com “notas” de algo banal, uma cena vivida por eles. Queneau vê um sujeito no ônibus e o encontra novamente, em outra ocasião, no mesmo dia. Madden é interrompido em seu caminho até a geladeira por uma pergunta da esposa e esquece o que procurava. A partir daí, cada um reinterpreta a história outras 99 vezes, alternando tempos verbais, pontos de vista, gênero textual, registro…
A partir dessas obras, propus aos alunos verificar as mais variadas formas de contar uma mesma história. Com os exercícios do Matt Madden, pudemos refletir sobre a espacialidade da página, sobre as formas que falam de uma época ou estilo de autor.
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ERUDIÇÃO

Os Exercícios de Estilo de Queneau foram publicados na década de 1950 (o OuLiPo surge como agremiação em 1960). Em 1963 sai uma nova edição limitada com tipografia de Robert Massin, ilustrações de Jacques Carelman: cada letra também tem seu estilo, assim como as imagens. No caso, Carelman [citado na última coluna] recria a mesma história em vitral, gravura, desenho dadá, ilustração de folhetim policial. Só nos anos 2000 Madden traria suas variações dos quadrinhos.
Estilo é compreendido aqui como escolhas individuais em um determinado ambiente; algo mais próximo ao gênero que ao estilo de autor. Ao se submeter a um estilo, a pessoa que escreve também se impõe uma restrição. No caso de Queneau, houve uma recusa pensada de escrever um estilo de autor (que seria um pastiche por definição), mas pensar justamente nos modelos textuais de cada gênero de escrita. Matt Madden faz alguns pastiches, demonstrando alguns estilos de autor que se tornaram quase uma escola de fazer desenho (Töpffer, Outcault, Herriman). Retomo essa explicação que usei, na minha tese:
… o estilo participa no interior desse conjunto como uma subespécie de texto que constrange a escrita ao mesmo tempo em que a identifica com um determinado conjunto de textos. E o estilo de um autor reúne os usos formais (sintáticos) e semânticos (vocábulos, temas) que podem ser identificados como usos costumeiros de determinado autor. Para a história em quadrinhos, quadros, balões, textos, personagens são os componentes de seu código. Os modos de usar tais elementos e sua distribuição pela página são decisões inerentes a um determinado estilo (de época, coerência individual, desvio de norma).
Os exercícios de estilo dos dois autores também são importantes por jogar com as variantes de um mesmo texto, pois o autor desloca a ideia de um texto “original” ou da necessidade de uma obra fechada e única. A reescrita, seja na forma de paródia, seja na de pastiche, é um exercício erudito e lúdico. Erudito, por requerer um papel de estudioso da forma, da estrutura do texto; lúdico, pois seu efeito desloca a ideia de unicidade de um texto: para além de um essencialismo da “mensagem”, do “sentido”, “significado”, o jogo demonstra a multiplicidade das camadas que um texto contém, a ambiguidade, a entrelinha, a polissemia. Um humor inteligente.
Raymond Queneau, como já falei por aqui, foi o fundador do OuLiPo; ou o OuLiPo foi fundado a partir de seus textos, embora ele tenha recusado sistematicamente a ideia de ser o centro de alguma coisa. Tendo participado ainda jovem do Surrealismo, ele sabia dos perigos de um grupo que girasse em torno de uma única pessoa (no caso, ele rompeu com essa vanguarda brigado com seu líder, André Breton). Assim, no OuLiPo, a prerrogativa é de criar formas potenciais de serem usadas por autores futuros, mas sem a ideia de criação de uma escola estética, nada que busque um centro, um gênio, o “um”. Caminhar para o múltiplo, o desconstrutor, a explosão dos sentidos:
… a ideia do jogo – descentramento e combinatória – estaria no cerne da potencialidade da literatura e da arte combinatórias, contrárias à ideia de gênio e produtos do acaso. O jogo multiplica as fontes de decisão, redistribui os papéis (as ordens discursivas), desfaz o uno.

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Sumário dos “Exercícios de Estilo” de Raymond na tradução de Luiz Resente. Imago ed., 1995

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O formato de release da Gallimard, com texto de Queneau e tipografia por Robert Massin

NA PRÁTICA

Algumas das atividades que pensamos na oficina de sábado para alunos de inglês, a partir dos exercícios de estilo de Queneau e Madden e dos trabalhos que cada professor desenvolve com suas turmas.
  1. Com páginas do livro de Madden soltas contendo apenas os desenhos, pedi ao grupo que tentasse encontrar a folha “matriz”. Nessa atividade, os participantes deveriam perceber quais elementos se repetem nos desenhos. É uma atividade difícil e que ajuda no processo de alfabetização visual, pois a pessoa tem de identificar o que é um personagem, um quadro, as ações que acontecem na página. Pela comparação entre diversas outras histórias, também é possível perceber que um texto tem seus sentidos amplificados por outros textos: assim, quanto mais leituras, mais inferências podemos fazer de um dado elemento.
  2. Após narrar um conto popular ou ler uma música conhecida, pedir ao grupo de alunos para reescrever a mesma história, distribuindo etiquetas com o estilo em que eles devem escrever: história de detetive, poema, diálogo de novela, haicai, funk, carta do leitor, sumário de livro acadêmico, notícia de jornal, comentário no Facebook, tweet, verbete de dicionário, fichamento, diário íntimo, bilhete, carta oficial… A leitura pelo grupo ou montagem de um mural com as histórias (pensando também a tipografia do texto, a sua imagem), além de ser trabalhoso por requerer atenção, releitura, correção, fica extremamente engraçada e dá importância à ideia de coletivo.
  3. A partir do texto “The Story of an Hour”, de Kate Chopin, distribuir os pontos de vista, e cada um pode escrever na perspectiva de outros personagens ou elementos da história: o marido, a irmã, o amigo, o mensageiro, o cachorro, a porta, a cadeira, uma barata andando pela casa, um fantasma… A estrutura do texto e sua cronologia é mantida (ou resumida), sendo que o trabalho é colocar a mesma história “em outra pele”. Esse trabalho também fica mais interessante quando relido coletivamente ou exposto em mural, página online reunindo trabalhos…
  4. Tomar uma página do quadrinho ou do texto e retirar um elemento dali. Por exemplo, em uma página em que Madden reescreve sua história a partir do estilo do Yellow Kid, retirar o elemento que provoca a catástrofe da cena, no caso um caminhão de gelo “atacado” pelas crianças. E se não tivesse gelo? E se fosse sorvete? Livros? Essa extração pode ser feita de qualquer história, com a proposta de uma reescrita ou reinterpretação. Pode-se eliminar personagens também, como Jochen Gerner propôs em uma oficina: ao pegar uma página em que Tintin e sua turma caíam em um lago no segundo quadro, imaginar como a história continuaria se os personagens tivessem morrido, usando o mesmo enquadramento, cenário e número de quadros. Só que os personagens que “morreram” no segundo quadro não estariam mais ali.
No mais, se você é professor, vamos trocar figurinhas. Há muito do Oulipo que pode ajudar na prática. E na teoria também.

PRODUÇÃO

André Valente enviou essa faz tempo, e gostaria que já estivesse nas bancas por aí. Foi resposta à minha proposta de exercício de iteração. ❤️ Val ❤️ foi lá e criou esse livrinho.

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CRIAÇÃO

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Os exercícios que proponho para vocês a partir disso são os seguintes.
1. Pega esse cartum aí do Dahmer e declina ele. Pode ser: tirinha no estilo do Dahmer, do Daniel Lafayette, do Schulz ou do Allan Sieber. Ou uma página da Turma da Mônica, da Luluzinha, dos X-Men. Pode ser notícia policial, quadrinho noir, história romântica. Pode ser na forma de um haicai, um soneto. Ou versículo bíblico. Tente fazer dois ou mais estilos diferentes dessa mesma história.
2. Ou variar outro texto/quadrinho e mostrar para a gente.
 3. A partir dos 22 quadros de Wally Wood ou dos 22 de Albert Monteys, escrever uma mesma história escolhendo apenas um ponto de vista. Por exemplo, a mesma tira escrita em “contrast”, em “profile”, “nieve”, “apagon”, manifestación” ou “perro fumando”.

Uma variante usando os mesmos quadros seria uma reinterpretação dos quadros, ou criando uma história com os quadros na ordem em que estão ou redesenhando a história usando os mesmos textos….

(Preciso dizer que se Wally Wood ensina “truques”, Albert Monteys demonstra os clichês da tira de humor?)

22quadrosquesemprefuncionam
22vignetas
Mas faça, e mande.
 Vamos lá?

1,

2,

3,

JÁ!

No aguardo da sua produção!
kamiquase@gmail.com

Observação: estão acompanhando o #inktober? De que autores? Ele parece uma variante (ou plágio por antecipação) da grafo-gincana (logo-gincana) que já propus por aqui.

Para ir além: artigo do tradutor dos exercícios de Queneau, Luiz Resende.