[Bartheman] Meu 3º grampo

Parece que foi ontem quando certa @ no Twitter me pediu uma lista dos melhores quadrinhos do ano para um tal de prêmio Grampo… Na verdade, parece que faz tanto tempo, pois de lá pra cá foi uma BALBÚRDIA só!

Sim, o Prêmio Grampo, iniciativa do Ramon Vitral e do Lielson Zeni precede esse site e as listas criadas caminham no mesmo sentido que tentamos construir aqui: pensar a produção atual não apenas para exaltar a produtividade, mas para estabelecer relações entre essas obras, ver as diferentes listas como signo de diversidade, uma tentativa coletiva de eleger aquelas obras em que vemos uma maior elaboração em meio a tanta produção nessa mídia, e, por que não, ver nessas listas uma espécie de crítica em curso.

Pela primeira vez, com o apoio da Ugra Press, o Prêmio também teve seu troféu, um encontro para celebrar as listas, os autores e as obras que o compuseram. Deu muito orgulho ver o grampinho sendo recebido e felicitado pelos editores e posteriormente pelos autores do bronze, prata e ouro: Rafael Coutinho, Richard McGuire e Marcelo D’Salete, respectivamente. Rafael, que esteve presente à nossa pequena cerimônia sem cerimônias, foi para casa com seu Grampo Bronze, e fez um texto bonito sobre o Prêmio.

Bem, mas eu estava aqui para explicar a minha lista.

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O meu 🔝5

 

2017 foi o ano dos livros. E livrões, no sentido de tamanho e peso histórico-artístico-cultural.

1- Mensur (Cia das Letras), por Rafael Coutinho;
2- Angola Janga – Uma História de Palmares (Veneta), por Marcelo D’Salete;
3- Sem Dó (todavia), por Luli Penna;
4- Aqui (Cia das Letras), por Richard McGuire (tradução: Érico Assis);
5- Tablóide (Veneta), por L. M. Melite;
6- O Barril Mágico de Lena Finkle (WMF Martins Fontes), por Anya Ulinich (tradução: Érico Assis);
7- Estudante de Medicina (Veneta), por Cynthia B.;
8- Meu Macanudismo (Bebel Books), por André Valente;
9- Baiacu (todavia), por vários (edição: Laerte e Angeli);
10- Um Ano Inteiro (Independente), por Galvão Bertazzi.

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Trechos de Mensur

Ainda estou me devendo um texto sobre Mensur. Desde que saiu, há quase um ano, eu fico repassando vez ou outra algumas cenas. Tem algo ali que ainda não decantou: há um encantamento, também. Acho que é um livro a retomar, a reler, das coisas que vão se revelando num a posteriori. As soluções visuais para aquilo que não precisa ser dito, a ênfase no gestual para aquilo que não é possível colocar em palavras. E as palavras que abundam apontando para o excesso das coisas que não têm sentido algum.

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estampas

Depois, Angola Janga: esperei muito tempo por esse livro. E foi tão feliz ele ter vindo assim, um clássico contemporâneo. Conheci Marcelo d’Salete na época do Encruzilhada, um dos meus quadrinhos-referência. Foi nessa época que ele me contou dessa pesquisa, desse livro, do qual Cumbe saiu anunciando uma pequena mostra do que viria. Todo o cuidado histórico de Marcelo, que ilustra sua narrativa com citações de fontes raras e diversas, ficcionando a história de Palmares em um tecido bonito do seu desenho que remete aos próprios povos que ele retrata.

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Sem Dó, de Luli Penna

Enquanto meus dois primeiros lugares eram livros cuja fabricação acompanhei, mesmo longe, Sem dó foi uma bela surpresa. Apesar de amizades em comum, eu não sei onde eu estava que ainda não conhecia a Luli Penna. Não sei onde estávamos! Posso dizer, então, que ler Sem dó foi paixão fulminante à primeira vista do traço de Luli. Tem tudo ali que eu gosto, a narrativa fragmentária, o cuidado da página, e a estampa das roupas, as linhas da fumaça do trem. Um traço que dá a pista para o sentido inteiro da narrativa. Esse fragmentário dando o tom da história das pessoas, marcadas por uma vida nada em linha reta. E a cidade grande as pessoas que vão crescendo a cidade, ao mesmo tempo em que ficam às suas margens.

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Aqui: quanta sensibilidade pra contar tantas histórias partindo de um mesmo tempo no espaço. Quem me lê sabe meu apreço pelo trabalho da restrição, e as páginas iniciais do projeto de McGuire, de 1989, já ocupavam um cantinho amoroso no fundo do meu HD. Nesse livro, ele conseguiu dar uma sustância narrativa e criar uma obra que dá para folhear, imaginar as linhas do tempo que se cruzam. É para vislumbrar a atemporalidade da História, e a perenidade do tempo que apenas se marca, mas não termina jamais. É a ideia de paisagem de que falava o geógrafo Milton Santos, um acúmulo de tempos em um dado espaço; me lembra também as viagens trafalmadorianas de Kurt Vonnegut, em que a ideia de um tempo cronológico não passa de uma ilusão humana. Pois as coisas ficam na paisagem, em ruínas, na poeira, nos átomos, dos fantasmas que cultivamos na memória.

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Trecho da primeira versão de Here/Aqui

Essas obras têm em comum um tempo longo de maturação: teve tempo longo de fabricação que cada autor teve entre pesquisa, estruturação, desenho, edição, edição, sim, muita reescrita e assim repito essa edição que é para lembrar que esses trabalhos não vieram simplesmente de um fluxo da inconsciência do autor. Também são contra à ideia tão difundida de que quadrinhos são feitos para se lerem rapidamente, são obras de releitura, também. E de pular as páginas, também, encontrando novos sentidos ao abri-los aleatoriamente.

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Tabloide tem uma narrativa tão bem costuradinha, tão legal de se seguir, e as cores tão maravilhosas, que entrou na minha lista por ser supimpa. E a protagonista é uma gorda ruiva e ela não está li para ser simplesmente gorda e ruiva, mas para ser fodona. Nos últimos dias, venho folheando a Júlia Kendall, detetive-mulher-fodona que é uma das referências para a Samantha do Melite em Tablóide[1]. Mas a Samantha é tão mais cool. Essa obra é um respiro na minha lista: algo mais ligeiro no ponto de vista da leitura, a ênfase na ação, mas com um cuidado página a página que ainda me permitiu um gosto estético. É o terceiro livro nessa lista que tem São Paulo como cenário, e mesmo numa ficção pop-pulp, não deixa de pensar as relações da narrativa com o espaço em que ela acontece.

O barril mágico de Lena Finkle é outro livro enorme desse ano, com uma história densa e bem cuidada, de um desenho que não se preocupa em ceder espaço ao texto. Assim como Estudante de medicina, são dois livros que eu também gostaria de escrever algo mais demorado. Ainda estão no forno essas escritas.

O Valente não devia valer entrar na minha lista, é praticamente marmelada, pois sempre vou querer votar nele. Assim como o Diego Gerlach, que, nessa lista, veio em seu zine Pirarucu, engolido por um peixe maior, a Baiacu. Mas André Valente, além de ser o ❤ Val <3, ainda me escreve um zine sobre tradução, e a letra traduzida, duas coisas sobre as quais escrevo tese[2], artigos… E ele consegue resumir várias teorias em Meu Macanudismo, e ao mesmo tempo uma narrativa tão pessoal. Já a Baiacu tem uma multiplicidade de autores, dos meus favoritos, e também de registros, em um empreitada também múltipla entre residência, eventos e publicação. E a Pirarucu, uma paródia da produção da revista, foi uma das coisas de que eu mais ri ano passado. Ainda rio, só de lembrar de como ele narra o encontro com o Rafa Campos Rocha – e fui testemunha desse encontro, inclusive faço figuração ali! Foi tudo verdade! Também é uma paródia dos cadernos de viagem, e nunca vimos o Gerla tão ~ pessoal ~.

A minha escolha web desse ano foi Um ano inteiro do Galvão. A gente tinha acabado de gravar uma entrevista com ele, que estava empolgado com projetos. Mas foi aos poucos que vimos aparecer na TL esse quadrinho DIÁRIO. De novo, um quadrinho que parte de uma restrição, uma obrigação (o cotidiano, o não perder o pique aqui, a forma rápida e uma página). E tchan-ran! Ele conseguiu! E a história ainda por cima é bem legal, louca, do jeito que a gente gosta.

E ainda tem papapapá!

***

Muitos livros não entraram por pura arbitrariedade: queria dar lugar a coisas que eu julguei não apenas bons, mas importantes em certo aspecto. Os quadrinhos do coletivo La Gougoutte ficaram de fora, porém os acho perfeitos, no delicado que eu gosto (Boxe do Alexandre Lourenço, Alho Poró da Bianca Pinheiro). O Maestro, o cuco e a lenda, do vencedor do Grampo 2017, Wagner William, é de um primor só. Queria enfiá-los ali, além de outras de autores da lista, também, que decidi por escolhas “representativas” de cada gênero que nem sempre apareceriam nas grandes listas. E talvez que esses livros serão com certeza bem lembrados e conhecidos, ils vont de soi. Nada muito definido, mas foram linhas imaginárias que tracei ali. Teve livro, como O Elvis que eu amo, da Kelly Alonso Braga, ou o Condição, da Aline Zouvi: talvez eles não sejam quadrinhos? E é uma pergunta que me pegou de repente, e ainda não resolvi. E, assim, eles ficaram de lado. E valem outros textos futuros. Assim espero.

 

Outros livros não entraram porque eu trabalhei neles: fiz o prefácio para o Síncope, da Zouvi, um alento para os que têm ansiedade. E ano passado saíram 3 livros traduzidos por mim, Billie Holiday de Sampaio e Muñoz, Sharaz-De vol 2 de Toppi (incrivelmente esquecido nas listas de 2018; o vol. 1 ficou em 7º no ano anterior) e meu hors-concours, Bulevar dos sonhos partidos, de Kim Deitch. Esse último é outra obra-prima, em vários níveis de leitura que ainda não consegui escrever completamente sobre esse livro.

O impressionante Waldo, do Bulevar dos sonhos partidos de Kim Deitch

Bom, por hoje é só, pessoal!

***

Estou com bastante saudade de escrever por aqui, os últimos meses foram de grandes mudanças pessoais. Mas já estou de volta!

 

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O Bartheman ainda está embaladinho… mas já já está de volta!

[1] porque agora, em nova casa, tem espaço mais visível para os gibis Bonelli e Vertigo da família – parte do enxoval trazido por certa @

[2] O capítulo 2 trata especificamente de tipografia e tradução (que eu explico também no artigo.

 

 

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