[Aberturas] A história da Dundum

Dundum capa japa

Gilmar Rodrigues escreve sobre a revista Dundum, lançada no começo da década de 1990 no Rio Grande do Sul, e que sofreu tentativa de censura por parte dos políticos de Porto Alegre.

Clique nas imagens abaixo para ver o texto diagramado por Sílvio Silveira:

Dundum – a história em quadrinhos

Por Gilmar Rodrigues

1990 – Corriam os anos de chumbo da ditadura Collor. Aquela das poupanças confiscadas. Em Porto Alegre explode um escândalo no seio da administração petista da cidade: pela primeira vez é lançada uma revista de quadrinhos com o apoio oficial de uma prefeitura.

Até aí nada demais, afinal a Secretaria de Cultura apoiava a impressão de cartazes para peças de teatro, shows e todo o tipo de evento artístico. Um dia depois do lançamento nas bancas, a revista foi parar nas mãos de uma vereadora de oposição. Enfurecida, bramindo impropérios e segurando um exemplar da Dundum. Ela invadiu um programa local de televisão. Em frente às câmeras “denunciou” o gasto de dinheiro público com quadrinhos “pornográficos”. A partir daí toda a ala conservadora da mídia caiu em cima da prefeitura e da revista. Particularmente aqueles apresentadores sensacionalistas e polemistas falsamente indignados, hipócritas.

Parece que sempre escalam os mais estúpidos, reaças e levianos pra faiar num microfone. Um deles chegou a dizer que a revista era feita por jornalistas do PT. Que não tomavam banho e viviam nas vilas pobres da cidade, mas andavam de Monza. Tudo mentira, embora o negócio do banho seja controverso, não é, Adão? Bons tempos em que o PT era de esquerda e o Monza era carro chique. Durante uma semana não se falou em outra coisa na cidade. Discutiu-se apaixonadamente nas rodinhas de cafezinhos. Nas conversas de bar e até por muita gente que nem sequer sabia que existiam quadrinhos para adultos. A edição de 1.500 exemplares esgotou-se em três dias. Foi feita uma segunda edição, também esgotada. Fomos convidados a debates em vários programas de televisão, alguns foram tranquilos, outros tensos, quase acabando em pancadaria. Entidades representativas de policiais protestavam contra o “ataque” às instituições da polícia civil e militar (se referiam a HQ “Polícia Para Quem Precisa de Polícia”), teve gaúcho reclamando de antigauchismo e até entidades de animais indignadas com a matéria de Laura Leiner: “Foda-se Seu Animal”. Foda-se.

O lançamento da revista aconteceu num teatro municipal e as horas que antecederam o evento foram marcadas por grande tensão. Especulava-se até que a justiça ia impedir o lançamento. Nada disso aconteceu, mas foi uma noite como não se via há muito tempo, uma noite de resistência, de barricada política e cultural. Antes do show de lançamento (mais adiante vamos contar a história desse show), discursos calorosos defenderam a liberdade de expressão e atacaram a hipocrisia moral. Na última participação, antes da banda tocar, sobe ao palco Eloar Guazzelli. Com sua eloquência nata, ele profere um discurso de arrepiar, emocionando a plateia. Como muitos dos que atacavam a Dundum haviam sido férreos defensores da ditadura militar e um deles especialmente esteve envolvido num assassinato, Guazzelli termina seu discurso dizendo: “eles têm as mãos sujas de sangue e nós temos as mãos sujas de tinta!” E entra a banda À Bala, formada por Sílvio na bateria, Adão na guitarra, Laura no baixo e Gilmar nos vocais (quer dizer, nos grunhidos). Fora o Sílvio, nenhum deles tinha experiência musical. No repertório números (e não músicas) como hardcore do gargarejo, cuja receita é: tascar um punk rock rápido acompanhado de um gargarejo (com água na garganta e tudo) no lugar dos vocais. O resultado é uma síntese de toda a obra dos Ratos de Porão.

Passada uma semana do lançamento, baixada a poeira da polêmica, a cidade pôde finalmente se deter no conteúdo da revista. Mas não viu com os seus próprios olhos. Mergulhada no escândalo, Porto Alegre só foi perceber o que havia dentro daquelas páginas quando saiu uma matéria da uma pagina inteira na Folha de S. Paulo. Num texto elogioso e bem informado, que analisava o conteúdo da revista, a Folha refutava o rótulo de pornográfica e citava exemplos de outras publicações de quadrinhos que haviam recebido patrocínio público na Europa. Calaram-se as últimas vozes da oposição. A parte da província que era contra, curvou-se ao veredito da metrópole. Viu-se que a revista era, antes de tudo, um painel do que havia de melhor no quadrinho gaúcho. Viu-se o humor agressivo e desrespeitoso como deve ser o bom humor, viu-se a irreverência e a despretensão da Dundum. Viu-se quadrinhos de pura arte.

Quase fomos presos

Quando o escândalo parecia encerrado, fomos denunciados pelo Ministério Público por “escrito obsceno”. Um artigo retirado às pressas da UTI do Código Penal antes do seu falecimento. A pena poderia chegar a três anos de prisão. Para nos precavermos dessa ameaça, convocamos para nossas testemunhas personalidades como Luis Fernando Verissimo, Edgar Vasques e outros escritores, cronistas e artistas locais. Na primeira audiência com o juiz, estavam lá as prestigiosas testemunhas.
Para eles os nossos sinceros agradecimentos. Os primeiros a prestar depoimento foram os editores Gilmar e Adão. A audiência, na verdade, era um interrogatório conduzido de uma forma ríspida, agressiva e preconceituosa por parte do juiz. Era nítido o seu pré-julgamento e sua “condenação” precoce. Agia como um delegado de porta de cadeia interrogando um bandido reincidente. Fora a grossura, era igual ao Moro. Se fosse hoje, como envolvia o PT, é certeza que seríamos presos. Em tom agressivo armava armadilhas retóricas para que “caíssemos em contradição”.

Como tudo parecia um tanto teatral, não conseguimos levar aquilo muito a sério. Ao ser perguntado qual era o tema da revista, respondi que era uma publicação de humor e quadrinhos. Então o juiz, severo, de testa franzida, empunhou um exemplar da Dundum, abriu na página da história “Papai e Mamãe” do Newton Bento e perguntou o que havia de engraçado ali. Comecei a rir e disse que achava aquilo engraçado. Ele deve ter considerado meu riso uma ofensa, do tipo “riu na minha cara, riu da justiça” mas fui espontâneo. A partir daí, o juiz aumentou a agressividade, aplacada somente quando começaram a entrar as testemunhas. Como eram todas personalidades respeitadas, ele percebeu que não estava julgando qualquer Zé Mané. Então, foi amansando, amansando até chegar, no final do interrogatório, a entabular uma conversação sobre chargistas e autores de histórias em quadrinhos. Todos, inclusive Luis Fernando Verissimo, testemunharam que não viam nada de pornográfico ou criminoso naquelas páginas.

O processo foi julgado em 94, quatro anos depois da publicação da revista. No banco dos reús, Adão Iturrusgarai, Gilmar Rodrigues e… Olívio Dutra, na época prefeito da cidade. A decisão sobre o processo estava nas mãos de três desembargadores (como estávamos sendo julgados junto do Olívio, pegamos carona num Fórum Especial a que ele tinha direito). Metidos em desajustados terno e gravata, esperávamos ansiosos e calados na plateia (esqueça a imagem do julgamento de filmes americanos, onde o réu fica sentadinho do lado do advogado, esperando a hora de dar seu testemunho ao juiz). A coisa começou feia pra gente. O promotor levantou-se e, em tom gravíssimo, denunciou a revista como um apanhado da pior licenciosidade. Porém, aquela gravidade toda se desmoronou quando ele citou o título de alguns quadrinhos e tiras.

A plateia (uns 40 presentes) caiu na risada ao ouvi-lo citar em voz tonitruante o título de uma tira: “O problema da fazer sexo oral com uma débil mental”. Foi desmoralizante. Seguiu-se a defesa e apreciação dos desembargadores. O primeiro achincalhou a Dundum: “Ainda que pese o reconhecido talento e respeitabilidade das testemunhas, essa revista não tem o menor valor cultural, é vulgar, chula…” e blá-blá-blá… mas, ao dar voto, esse mesmo juiz, surpreendentemente, nos absolveu: “Os réus desconheciam a lei, não tinham intenção de desrespeitá-la”. Quer dizer, além de obscenos fomos considerados ignorantes.

O segundo desembargador, considerando a noção de obscenidade como subjetiva, obsoleta e injustificável no código penal, nos absolveu. Alívio. A parada estava ganha. O terceiro desembargador, nada disse sobre a matéria em julgamento e seguiu o voto do primeiro meritíssimo. Estava encerrada toda a polêmica. Fomos absolvidos por 3 a 0 sem direito a apelação pela promotoria. Pra falar a verdade, todos os processos que tem como réu uma obra de ficção (em última análise eram julgados os conteúdos de algumas histórias e piadas) acabam por cair no ridículo e no insólito de se julgar personagens e situações fictícias.

Ao lançarmos a Dundum a nossa intenção era fazer só um número. Vendo que a maioria das publicações alternativas não conseguia cumprir a pretensão de periodicidade, resolvemos relaxar com essa obrigação e simplesmente editar o que nós e alguns amigos guardavam na gaveta. O foda-se foi ligado na potência máxima.

Nem sonhávamos com as agressões e a perseguição da direita, hoje em dia mais assanhada e perigosa. Deu no que deu. Ainda foram editados mais dois números: um em 91 e outro em 92. Sem escândalo, a Dundum provou que podia sobreviver por si só. Expandiu o leque de colaboradores para outros estados e países e projetou nomes nacionalmente (Adão, Jaca, Fabio [Zimbres]), abriu caminhos para a profissionalização de alguns colaboradores (Guazzelli, Sílvio), renovou o humor e os quadrinhos no Rio Grande do Sul e teve até uma edição lançada no Japão.

Depoimentos nas caixa de texto lateral das páginas 32 e 33:

Dundum, Dundum… é claro, as besteiras da nossa juventude sempre batem à nossa porta. Quando o Gilmar me pediu estas linhas eu primeiro pensei em desconversar, afinal, renegar o passado está na moda. Mas, pensando bem, foi bom lembrar da agitação daquele começo de anos 90 e da ironia que foi ver uma proposta editorial tão displicente (não em qualidade mas pelo fato de que o Adão e o Gilmar não tinham depositado no projeto aquela carga messiânica – do tipo agora vamos sair da gaveta e respirar nem que seja por 5 minutos – que os pobres autores locais sempre depositavam nos seus projetos editoriais) provocar tanto barulho e funestas consequências. O barulho ficou por conta de uma briga com os fascistas de plantão que conseguiram a proeza de levar os dois editores a uma ridícula audiência no Tribunal de Justiça, da qual eu fui testemunha (o Adão estava apavorado pois tinha dúvidas se eu não o acusaria de repente. Não sem razão… ). Bom, o caso também me proporcionou o raro prazer de brigar na televisão com algumas das estrelas da mídia gaúcha (grandes bostas). Afinal, não é todo dia que invadimos o campinho de um grupo de cretinos televisivos para xingá-los na frente de seu público e subordinados. E hoje, quando vejo num programa jovem da TV alguém dizer que a atitude irreverente de um membro de uma banda poderia estragar o imagem dela, eu penso: nossa, os punks estavam errados existe futuro sim. Ele já chegou e é uma merda. E daí eu sinto orgulho de fazer quadrinho, uma arte basicamente mal comportada, que dá processo judicial e que até onde eu sei não se preocupa com imagem. E daí, por incrível que pareça, eu sinto muito orgulho da Dundum.
Eloor Guazzelli, desenhista.

Só faltou mesmo aquele show em Tóquio da banda À Bala pra coroar a trajetória multicultural da Dundum, da qual tirei muito proveito na ambivalente condição de pelego e superamigo da diretoria. Tempo bom que não volta nunca mais ou será que volta? O Guazza em Sampa, o Gilmar no Rio… cada um prum lado, mas antigamente nos reuníamos com frequência aqui no Sul em inspiradas noitadas, fosse pra discutir os rumos da revista ou só pra dar umas boas risadas. Nosso grupo era tão coeso que até banda de rock a gente formou entre os colaboradores, isso sem falar nas viagens coletivas pra salões ou eventos afins, como o estratégico intercâmbio com los hermanos argentinos, liderados pelo grande amigo Elenio Pico. Além desse rico convívio social, graças à Dundum pude aprimorar minhas técnicas de autotortura cortando os dedos ao colar mais e mais retículas nos meus originais a cada nova edição. Que tempo bom…
Sílvio Siveira, desenhista

Se eu fosse escrever algo eu teria que dizer que quando o Adão apareceu dizendo que ia lançar uma revista é claro que eu não levei a sério e por isso mesmo nem mandei história para o primeiro número. Revista de quadrinhos, quem é que aguenta isso hoje em dia, foi o que eu pensei, sentado no minha cadeira na editora da Animal. Quando saiu o segundo número, minha vida já era o caos adequado para conseguir produzir algo para uma revista em quadrinhos, eu já conhecia vários dos autores da Kamikaze graças ao lançamento da revista em São Paulo. Minha estrada já estava virada ao Sul e eu nem sabia. No terceiro número, eu ainda não tinha completado a rota hacia Buenos Aires, mas já morava em Porto Alegre e a história que eu publiquei – um clássico involuntário chamado “O Pato em Marte” – é fruto dessa viagem que dura ate hoje.
Depois de tudo isso, só posso olhar pra trás e agradecer à Dundum, não tanto pelo escândalo de seus autores e autoras nem pela qualidade de seus quadrinhos, mas por ter mudado minha vida.
Fabio Zimbres, desenhista

Agradecimentos a Gilmar Rodrigues e Sílvio Silveira por liberar o conteúdo aqui reproduzido

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