[Aberturas] Quando nós somos Sísifo

Pedimos a Alisson da Hora* para nos escrever sobre literatura e censura, e ele nos entregou esse belo texto.

Imagem-denúncia dos tempos obscuros que ocupava os muros à época do maio de 1968, na França.  Autoatribuída ao pintor Jacques Carelman, que conta, na revista Éprouvette (2007), como estudantes de arte cobriram os muros da faculdade com vários lambe-lambe dessa imagem, em protesto à invasão policial que sofreram dias antes.

 

Quando nós somos Sísifo

Camus se viu obrigado a suprimir na primeira edição de O mito de Sísifo o pequeno texto “A esperança e o absurdo na obra de Franz Kafka”, por conta de, numa França ocupada, cercado de nazistas e colaboracionistas, não era de “bom-tom” ficar discorrendo sobre um autor judeu. Substituiu por um texto sobre Dostoiévski.

Em se tratando de literatura e artes, a censura não é nova e obviamente não responde a critérios muito objetivos senão àqueles que correspondem ao gosto ou à conveniência de quem, muitas vezes, está no controle do imaginário. Assim, Platão já dizia que poetas eram mentirosos que corrompiam o mundo sensível e que deveriam se dirigir ao exílio a não ser que decidissem escrever com as regrinhas bonitinhas da República. Essa adorável ideia platônica serviu para que os católicos depois estabelecessem seu Index, muitas vezes fazendo fogueiras com a substância dos proibidos, e até bem antes dessa institucionalização os primeiros fanáticos cristãos já tinham arrastado Hipátia de Alexandria pelas ruas da cidade enquanto a famosa biblioteca ardia, fazendo com que parte do conhecimento da Antiguidade Clássica se perdesse e só retornasse mais tarde ao nascente mundo ocidental pelas piedosas mãos dos muçulmanos como Averróis e Avicena.

Mundo muçulmano, aliás, que hoje em dia emula os seus amiguinhos católicos (sim, o Index católico ainda existe!), e têm horror a qualquer livro que possa subverter sua ordem (depois ainda há quem se pergunte porque Paulo Coelho faz sucesso por lá).

Disponível em Existential Cmics, de Corey Mohler (clique na imagem para ir ao site)

Toda censura, por mais sofisticada que se torne, trará consigo a indelével marca da burrice. Em Amadeus, de Milos Forman, temos a cena na qual Mozart dribla a censura da Corte austríaca sobre o tema abordado em As bodas de Fígaro (acreditavam que a mera encenação provocaria uma luta entre as classes), se ajoelhando e dizendo que Fígaro estaria buscando algo embaixo da cama e não fomentando revoltas.

Lógico que acreditaram em Mozart.

Mas há os mais esquentadinhos, como os agentes do DOPS descritos por Stanislaw Ponte Preta num dos Febeapá, que invadindo o Teatro Municipal de São Paulo, (onde estava sendo encenado Electra) buscavam prender Sófocles sob a acusação de subversão.

Tais exemplos são bem característicos de como nosso fardo é pesado e absurdo como o de Sísifo. Quando achamos que superamos a estupidez – essa imperatriz de visão frequentemente turva -, seus filhos pululam de todos os lados bradando contra às agressões à moral, aos bons costumes, às criancinhas que não falam palavrão, botando nas nossas costas a pedra da reflexão e fazendo com que subamos a ladeira do absurdo, enquanto vamos pensando no que deu errado.

Não que tenha dado errado, nem é somente a “cadela do fascismo que está sempre no cio”, como gostava de dizer Brecht: são visões de mundo inconciliáveis sempre em conflito como a de um Platão que achava corrupção a poesia que não se enquadrasse nas leis da República, do mundo católico que acha que Harry Potter é realmente daninho para o aluno de catecismo que o lê (e se há quem se salve das birras católicas por não seguir a estrita ortodoxia que mesmo o Catolicismo Romano possui, os praticantes fervorosos conseguem ser tão reacionários quanto um neopentecostal que prega a conversão ou a destruição daqueles que não acreditam neles), do muçulmano que pede o pescoço de Salman Rushdie.

O tempo no qual essas reflexões sobre validade e necessidade, legitimidade e beleza, negatividade e certeza, enfim, tudo o que cerca a arte em qualquer nível corresponde quase sempre ao momento no qual nós, como um Sísifo constantemente reeditado, cremos que o obscurantismo está adormecido. E não está. Podemos carregar a pedra novamente lá para cima, enquanto explodimos de pensar no caminho; podemos pegar a pedra e nos recusarmos a permanecer no absurdo da situação e dá-la aos estúpidos para carregarem um fardo ao qual não estão acostumados: pensar.

E eis aí o mais absurdo de tudo isso, porque novamente a pedra recai no nosso colo e nos vemos forçados a pensar como fazer os outros pensarem enquanto eles imaginam que podem decidir sobre o que pode ser lido, sobre o que pode ser visto.

O problema é quando ainda imaginamos sobre o quanto eles podem decidir e vamos subindo novamente a ladeira das reflexões com isso em nossas mentes.

O perigo é entre nossa imaginação e uma possível realidade na qual eles vão, efetivamente, decidir.

Então é hora de esmagá-los com a pedra.

  • Alisson da Hora é poeta, crítico literário, Doutor em Literatura pela UFPE, e professor na mesma universidade.

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