[Vem comigo] Eu quero acreditar

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Gomez é conhecido na rede mundial de computadores por seus cartuns e quadrinhos que circulam como memes. Se você não recebeu na taimelaine alguma tira, cartum ou página dele, favor limpar seus contatos ou vai continuar recebendo só fake news de bolsonarianes.

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Quadrinho publicado essa semana no Correio Brasiliense
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Tira que circulou bastante nas últimas semanas

Eu quero acreditar é seu segundo singelo livrinho lançado pela editora Beleléu. O livrinho vinha com cartaz (para quem o comprasse na pré-venda) parodiando aquele que dá título ao livro, a clássica provocação de Fox Mulder colada em seu escritório dos subsolos do FBI. Assim como em Arquivo X, as crenças a que nós, leitores, somos chamados a “botar uma fé” são tanto lendas populares e urbanas quanto míticas sociais ou políticas, quotidianas. Pois como as histórias da carochinha, as frases inúteis que homens e mulheres dizem apenas para camuflar preconceitos, mentirinhas e autossabotagens fazem parte do repertório que nos faz descolar da realidade e fazer de conta que “sim, seria possível”, “seria lindo se”, “não fui eu, foi meu eu lírico” etc.

A estrutura do livrinho segue as restrições de sempre apresentar, à esquerda, uma lenda popular. À direita, uma mitologia contemporânea: imparcialidade jornalística; Trump, o mal menor; o preconceito está nos outros, nunca em quem o profere; o pagamento na forma de crédito de visibilidade (um autorretrato de Caio Gomez, na p. 29); a truculência policial como solução para todas as mazelas…

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O Chris Carter queria fazer de Arquivo X uma metáfora para as conspirações e mitologias latentes pós-Watergate, seguindo a tradição televisiva da ficção científica e terror camuflando #críticasocialfoda, desde Rod Serling para Além da Imaginação/Twilight Zone. Gomez, em cada uma dessas páginas duplas, remete a esses universos em que a ficção força uma barra para esconder a verdade que está bem ali, na cara.

 

***

E sabe quem também curtia isso de mitologias contemporâneas e analisava-as com delicadeza e humor para apontar as falsas premissas dos discursos de poder, né? Ele mesmo, Roland Barthes!

A noção de mito pareceu-me desde logo designar estas falsas evidências; entendia então essa palavra no seu sentido tradicional. Mas já desenvolvera a convicção de que tentei em seguida extrair todas as consequências: o mito é uma linguagem. Assim, ao ocupar-me dos fatos aparentemente mais afastados de toda literatura (um combate de catch, um prato de cozinha, uma exposição de plásticos) não pensava sair de uma semiologia geral do nosso mundo burguês, cuja vertente literária já tinha abordado nos meus ensaios precedentes. Mas foi apenas depois de ter explorado um certo número de fatos de atualidade que tentei definir de uma forma metódica o mito contemporâneo […].

O leitor encontrará [nos textos de Mitologias] dois propósitos: realizar, por um lado, uma crítica ideológica da linguagem da cultura dita de massa, por outro, uma primeira desmontagem semiológica dessa linguagem. […] Seria talvez possível sair da denúncia piedosa e revelar em detalhe a mistificação que transforma a cultura pequeno-burguesa em natureza universal.

(Do Mitologias, em prefácio e posfácio escritos em 1970)

Para Barthes, só seria possível fugir dessa vontade de naturalizar a ideologia burguesa fazendo uma “semioclastia”. Explodir esses signos contemporâneos, denunciando-os e rindo-se deles. Obrigada, portanto, Gomez, por esse manual semioclasta.


O autor cria sobretudo para jornais, e está acostumado a condensar as manchetes em poucas linhas e palavras. Animador  também, seu livrinho anterior (ambos são formatinho diagramado por Stêvz), de corações enlouquecidos, Mini-enfartos, também é um flipbook (esses livrinhos de passar as páginas correndo até virar desenho animado). Caio Gomez e Stêvz são dois dos fundadores do Calendário Pindura, que reuniu entre 2009-2012 diversos autores para ilustrar os dias do ano. Essa gente de Brasília + o povo em RJ formaram a base criativa da Beleléu, em que a ideia de jogo, restrições oubapianas, estão sempre presentes.

***

A Beleléu nasceu como revista em 2009, e tive a honra de ser testemunha ocular não silenciosa do debate que escolheu seu nome. Fundada por Daniel Lafayette, Eduardo Arruda, Stêvz e Tiago Elcerdo, hoje tem apenas dois antigos membros na atividade editorial + Pablo Carranza (Lafayette em carreira solo, Stêvz tocando as Organizações Chupa Manga e mil bandas). Fico muito feliz com o trabalho esmerado dos beleléus, que vêm se tornando um modelo de negócios estável ainda mais com a contratação da manager Beatriz Shiro e da criação de mais um mascote, Martim (o Tintim).

***

Minha primeira resenha para a Beleléu (de 22 de novembro de 2009) tinha conseguido ser mais apologética e empolgada do que qualquer outra coisa. Mas bem feliz desse auspício da vida longa da revista, mesmo se ela foi (como revista) para o Beleléu e reencarnou como editora:

Beleléu

Um pequeninho príncipe suicida na contracapa violeta. O lilás e o violeta – minhas cores favoritas – pegam pesado comigo, essa fã declarada desses quatro quadrinistas.

Beleléu corre, cursivo, sobre os quatro, animalizados logo de frente, capa à tapa.

O livro, em formato de quadrinho, reúne elegantemente Lafayette, Arruda, Elcerdo e Stêvz mais os quatro convidados Daniloz, Kioskerman, Berliac, Gomez. 

São muitos os elementos que fazem de Beleléu uma obra superior em matéria de quadrinhos. É uma revista-livro. Cada página sobreviveria emoldurada, ao mesmo tempo em que seu conjunto é incrivelmente homogêneo. Homogêneo, pois apesar dos traços distintos, distintivos de cada autor, não há ali nada que destoe do cuidado múltiplo de desenho, cor, estrutura, texto. Não há nada de graça em Beleléu.

Toda a estrutura da revista parece pensada. Ligo-os, com frequência, aos franceses do oubapo. A ideia coletiva encontra parceiros de peso pelo mundo. Beleléu é um exemplo de trabalho coletivo de sucesso e de qualidade. Não apenas publicar quadrinhos por quadrinhos, não se vê ali a velha ladainha de precisar dar relevância aos quadrinhos. Ela, por si só, se destaca. Chamará, possivelmente, a atenção de críticos de arte. O engajamento da Beleléu é no trabalho de desenhar e de escrever.

A gramática da revista, amparada em um jogo constante com a linguagem quadrinística, com muitas referências à literatura e à cultura ocidental, faz desse livro uma matéria universal.

Além de ser lindo, é claro.

p.s. : lançamento hoje, na travessa de Ipanema

 

 

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