[Vem Comigo] A Menina do Outro lado v.1

Shiva, uma pequena garota, é cuidada por um ser que não pode ser tocado chamado Sensei, pois ele foi infectado pela praga. Isso faz com que Sensei e alguns outros contaminados sejam mantidas do lado de fora. Esse é o arco base da série de mangás A Menina do Outro Lado v.1, de Nagabe (DarkSide, 2019, tradução de Renata Garcia).

Essa é a primeira série do mangaka a chegar ao Brasil. Autor jovem, de 25 anos, Nagabe é um desenhista virtuoso e de sucesso comercial no japão, onde essa série vendeu mais de 400 mil exemplares.

A Menina do Outro Lado trata de xenofobia, abandono e rejeição, tudo isso embalado na chamativa arte em preto e branco de Nagabe. A série caminha no limiar de um conto de fadas macabro e de algo absolutamente contemporâneo. O segundo volume da série já foi lançado pela editora.

Há toda uma ideia de rejeição ao estrangeiro, tema muito atual (tratado de forma muito boa também em O Relatório de Brodeck, de Manu Larcenet). As ondas migratórias de zonas de guerra para países centrais do capitalismo é uma daquelas grandes questões a serem resolvidas pelo nossos tempos. Quase sempre mal recebidos e colocados em condições pouco salubres (como visto em Os Refugiados, de Kate Evans), os imigrantes são vistos como ameaça aos empregos, à moradia, ao bem-estar social e à cultura.

As migrações em massa são, em sua maior parte, consequência de conflitos e desastres naturais, situações que inviabilizam viver na terra de origem ou que põe sua vida em grande risco (como as minorias de religião não islâmica em áreas dominadas pelo Daesh).

Uma ideia associada de forma preconceituosa a imigração é da doença, da peste. Já que o Godwin revogou sua lei, posso citar que os nazistas associavam a população judaica a ratos por conta de seu poder contaminação (por isso que Art Spiegelman chama seu livro de Maus, que é “rato” em alemão). A ideia de ser contaminada não passa somente por vírus e bactérias que trazem doenças, mas a contaminação de uma população sadia que pode ter sua cultura e seus costumes mudados pelo contato com a cultura diferente.

(é preciso ressaltar que essa é a forma que a cultura funciona, pela mudança e transformação a partir do contato com outras ideias diferentes).

Outro ponto que consigo ancorar a obra de Nagabe no mundo real é pelo sofrimento e abandono a que as crianças são submetidas (basta pensar nas vítimas dos naufrágios dos barcos ilegais nas costas europeias ou nos campos de concentração na fronteira do México com os estados Unidos). Em A Menina do Outro Lado, não há o movimento de migração, ela já está lá, separada da família e a conviver com alguém tocado pela doença. Se trata sem dúvida de mangá de terror, que fica ainda mais amedrontador quando você levanta a cabeça da leitura e olha pro mundo.

Importante avisar que sou editor assistente na DarkSide Books e trabalhei diretamente na produção deste livro (e do segundo também). Por isso, fiquem atentos, pois por mais que tente ser neutrão pra tratar da obra, pode ser que eu não consiga e acabe me passando nos elogios. Vigiai!

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