[Parlatório] Jean-Christophe Menu

Esses dias, li pelo Facebook do Frédéric Hojlo que a editora L’Apocalypse, de Jean-Christophe Menu, deve retornar às atividades.

L’Apocalypse foi fundada após o autor e editor retirar-se da L’Association, a editora francesa responsável por lançar autores como Marjane Satrapi e David B., para ficar nos mais conhecidos. A entrevista que segue foi publicada em 2010, quando a L’Asso celebrava seus 20 anos. Hoje, o tal site já se encontra no ar, e a editora chegou a entrar no mercado dos livros digitais (vendidos por terceiros). E muita coisa mudou também na nova estrutura, inclusive com a publicação de livros em quadricromia.

Mas segue aí a entrevista já adolescente, como um registro da voz de um editor importante para o cenário francês até hoje.

Preparava-me para conhecer um personagem de quadrinhos. Pois é, havia conhecido o quadrinista e editor Jean-Christophe Menu pelas páginas do Oupus 4 da L’Association, livrinho de 15×15 cm em que a cada página havia dois quadrinhos de autores diferentes, embaralhados, numa proposta do chamado Oubapo.

J-C Menu é o autor de quadrinhos (“bédéaste”*, como se diz por lá, agora), mais conhecido por ser editor fundador da L’Association, de quadrinhos “alternativos”. Aprendeu a desenhar sozinho e é um verdadeiro militante dessa arte. Na década de 1980 fundou a Associação de Apologia pela Nona Arte Livre, ou ANAAL (sim, em francês também há duplo sentido). Lá, já alternava o traço em preto branco com textos de denúncia aos academicismos e a certo enclausuramento do quadrinho em guetos editoriais. Conhecido pelo seu personagem Meder, ganhou fama ao ser publicado pela Futuropolis, célebre casa do chamado “quadrinho de autor”. Mais tarde, a Anaal se transformou na L’Association, a “independente” com maior número de publicações. Era realmente uma associação de autores em prol da publicação da arte quadrinística; ao lado de Menu, na fundação, estavam Patrice KillofferLewis TrondheimDavid B. e Matt Konture. Outros autores que entraram para o grupo mais tarde foram Blutch e a iraniana Marjane Satrapi, cujo Cannes de melhor animação por seu best-seller Persépolis atraiu outros olhares para esse meio (além de participar ativamente de debates sobre o Irã). L’Association completa vinte aninhos em 2010, publicando muito mais autores, com um catálogo repleto de obras de arte e até jogos a partir de quadrinhos, como dominós, palavras-cruzadas…

J-C Menu, um guerrilheiro

Logo na primeira página do Oupus 4 vemos Menu: autorretratado, irritado, vestindo a camisa listrada que se repete em outros quadros, dele ou de outros. Seja tomando a quinta cerveja no bar, bebendo para perder medo de avião, discursando bêbado sobre quadrinistas/heróis ou falando que tem certeza de que o desenharão bêbado. E tinha razão.

Depois de tê-lo visto desenhado, li como a mídia de quadrinhos o pintava: como alguém que insultava a torto e a direito quem quer que fosse e se isolava como único editor da casa que era associativa desde o nome. Em 2004, Menu travou uma briga com jornalistas de quadrinhos. Da briga, tirou o livro plates-bandes (algo como “tiras medíocres”, mas também “canteiro”, da expressão “marcher sur le plate-bande de quelq’un”, que significa ir no canteiro de alguém, ou seja, invadir a área do outro), de 2005, ensaio ácido contra a imprensa de quadrinhos e todo o mainstrean.

Na França, desde os anos 1950, há um padrão nessa área; os álbuns de quadrinhos são grandes, de capa dura, coloridos, 48 páginas em geral. Os 48CC. Os quadrinhos dos jornais, em preto e branco, são a tira barata e apressada em contraponto com os luxuosos “álbuns”. A cor é signo de nobreza.

Nos anos 1990, os editores especializados em quadrinhos adotaram o modelo do 48CC para todas as obras, assim como o modelo de conteúdo. Histórias com heróis, seriadas, dos mesmos gêneros de sempre: “medievo, policiais, velho-oeste, ficção científica etc.”. Segundo J-C Menu, a norma absoluta que se impõe aos quadrinhos apresentados nos mais recentes festivais é o “48CC/HF/KK”, sendo HF o gênero que predomina nas novas produções (fantasia de herói) e KK (caca) significa o que ele pensa da qualidade dessas obras e desses clichês.

Assim, quando esses artistas se associam para publicarem, estabelecem escolhas editoriais para fugirem do padrão, em busca de uma criação constante, reinventando mesmo o livro como objeto. E preferem a escolha do preto e branco por uma valorização do traço e contradizer a ideia de “cor = nobreza”. Uma incessante recherche pela inovação e contestação dos poderes (leia-se padrões editoriais) vigentes. Passam a trilhar o caminho do inusitado. Eles se associam, também, aos ideais e estratégias surrealistas. Criações coletivas, a introdução sistemática do sonho, são alguns dos ensaios de produção desses artistas e, mais recentemente, a autoficção.

No plate-bandes, Menu responde raivosamente a jornalistas que criticaram a sua atitude – acompanhada de linguagem extremamente agressiva, ele mesmo concorda – de recusar a publicação de qualquer matéria sobre os artistas da L’Asso. A mídia especializada em quadrinhos, segundo ele, relegou essa arte a um gueto de especialistas, com trejeitos de revistas de fofocas. Em seu livro, ele comenta como sua editora consegue ser um dos grupos editoriais que mais vende sem precisar “se vender”.

Além de erguer uma editora própria, esses autores criaram o grupo Ouvroir de la Bande Dessinée Potentielle (OuBaPo – Oficina de Quadrinhos Potenciais). Eles se posicionavam como herdeiros do surrealismo, mas tomando como referência o Oulipo, Ouvroir de Littérature Potencielle (criado por François le Lyonnais e Raymond Queneau e cujo maior exemplo foi o romance sem a letra e do revolucionário Georges Perec).

Em sua primeira publicação, reunindo as experiências de vários de seus artistas, a OuPus1 (trocadilho com a palavra ouvroir + opus) apresenta textos teóricos, também, sobre OuLiPo e OuBaPo. Menu avança, em seu ensaio “Ouvre-Boîte-Po” (abre-latas-po: abridor de latas potencial), que em meio a tantas artes potenciais, as histórias em quadrinhos, celebrando na época seu centenário, não deixavam de ser, ainda, uma arte em potencial. O Oupus1 não deixa de ser um livro-manifesto a favor dos quadrinhos.

A nova Lapin não desapontava: o novo formato – trimestral, como ela já tinha sido, anos antes – contava com o editorial sarcástico de Menu e páginas e mais páginas de novos talentos, além da prata da casa. Até páginas amarelas ou ultralaranjas, a gosto de cada autor. Esbarrei nele e interrompi uma conversa para me apresentar. Menu me olhou, sério: “Ah, é você”.

Mesmo assim, aos 21 de janeiro de 2009, eu batia nas grandes portas vermelhas da L’Associationlá foi a mocinha se apresentar, entrevista com o Monsieur Menu, Monsieur Menu trabalhando nas pranchas de algum livro, páginas caindo da rotativa, o galpão repleto de cartazes pelas paredes, estantes e mais estantes.

A imagem de autor amargo e brigão se dissolveu nos primeiros segundos quando ele percebeu seu café ainda frio. Acabei fazendo perguntas estúpidas. Quand même, apesar dele reagir como se fosse a coisa mais óbvia do mundo, foi extremamente gentil e respondeu pacientemente. Menu me pareceu um pequeno príncipe crescido, o cabelo ruivo e os grandes olhos incisivos.

L’Association e Oubapo: modo de usar

Sobre a diferença entre as experimentações em quadrinhos e o OuBaPo, Menu respondeu (“Ora bolas”, era o que ele dizia com os olhos) que, em geral, o segundo busca aplicar restrições em que alteram ou suprimem elementos que, justamente, definiriam o que é quadrinhos. “O OuBaPo é uma ciência, é matemático”, Menu reforça. Objetivo de esgotar a própria definição geralmente aplicada a “histórias em quadrinhos”, como eles afirmavam na Oupus 1Tudo começou em 1992, quando esse grupo se reuniu para criar mais um “gênero de estrutura sob restrições”.

“É um campo de pesquisas centrado sobre os quadrinhos sob restrições”. Sobre a relação do OuBaPo com outros grupos artísticos, Menu responde que não há interferência. “Por outro lado, há mistura de assuntos com outros ouvroirs”. Alguns trabalhos foram realizados sobre um tema comum. Menu citou o exemplo da uma “releitura” do regulamento da biblioteca do Beaubourg, em Paris (o OuBaPo publicou alguns desses trabalhos no OuPus 3). “Então, cada modo de expressão tratou isso com restrições diferentes”.

L’Association, 20 anos

No começo, eram apenas os autores tentando se publicar, sozinhos. Há dez anos, em entrevista, os então editores e Menu contavam, entusiasmados, sobre a experiência desse início, de quando contrataram o primeiro funcionário. Hoje, há apenas um editor e diversos funcionários. Um dos últimos autores a emigrar foi o Lewis Trondheim (que, aliás, presidiu o célebre festival de quadrinhos de Angoulême 2009, cujo grande prêmio foi para Blutch, que o presidiu esse ano – 2010). Perguntei se ele acreditava em um retorno na colaboração de alguns desses autores. “Alguns talvez, outros não muito […] “É uma história que é assim, uma coisa que aconteceu”.

Lewis dirige, atualmente, a coleção Shampooing (frase do Trondheim, sobre a coleção: “Lava a cabeça e faz bolhas. Shampooing é para os grandes que sabem permanecer pequenos e para os pequenos que querem ser grandes”. Realmente algo de certa forma… diferente… se comparado a sua Nouvelle Pornographie, publicada pela L’Asso“Uma outra abordagem”, como disse Menu. “O trabalho que ele faz na Shampooing é o que parece com ele. É um pouco o que ele queria fazer na Association, são coisas que, na minha opinião, são menos exigentes, são menos radicais […]. É um pouco do que ele quis. […] É normal que haja duas estruturas, não é maléfico”.

L’Asso continua funcionando de modo associativo: leitores/autores colaboram com uma pequena taxa e recebem brindes, o catálogo anual, cartões de Natal. São estratégias de marketing que asseguram a produção e encantam os leitores. Ainda enviam um “diploma” em A3 com desenho elegante, seu nome e número de associado [continuo recebendo os diplomas, há 12 anos!].

Menu afirmou ainda que não considera sua editora como de vanguarda, muito menos “independente”. “Nem sempre publicamos livros de vanguarda, se um autor tem um bom trabalho de desenho e de texto, publicamos”. Não precisa ser, necessariamente, “algo novo”. Em seu plate-bandes, ele já afirmara a sua preferência pela palavra “alternativos”, pela proposta de uma alternativa aos padrões. E “independente não quer dizer nada […]. E depois, a gente sempre é dependente do sistema, de qualquer forma, sempre dependentes de um mercado, do distribuidor, das usinas de papel, que fecham, nesse momento, a gente é dependente de tudo isso”.

Sem espaço ou com o espaço limitado por escolhas editoriais que privilegiem mercados, não artistas, L’Asso pretendeu, desde o início, trabalhar o livro como um todo. Cada coleção é pensada em um tamanho diferente, com capa monocor, mas bem viva, em papel de qualidade. Como Menu enfatizou na entrevista, eles publicam obras cujo conjunto seja bom: “não é necessário apenas um bom desenho ou um bom texto, ambos devem ser harmonicamente autorais e de qualidade. Um trabalho, sobretudo, voltado pelo desenho à la plume”, com mais ênfase no traço. Dos brasileiros, se interessa sobretudo por Fabio Zimbres.

Sobre a internet, L’Association conta com o endereço http://lassociation.fr/ “à venir” (em breve) há pelo menos dois anos. Não passará de um site de vendas, para a distribuição dos livros no exterior, mas talvez não passe de uma piada deles. A internet como mídia não lhe interessa. “Sei que há muita gente que tem um blog esperando ter um livro depois, um meio de se fazer reconhecer autores fora da imprensa. Eu sou da área dos livros.”.

Ao longo dos anos, o trabalho de Jean-Christophe Menu parece continuar coerente com suas primeiras metas de luta pela criação e editoração. Seu trabalho, para ele, é o de “continuar o que já vinha sendo feito”. Não há, muito menos, uma preocupação com as premiações. Era justamente a semana anterior ao festival de Angoulême. Quis saber como era isso de não aceitar os padrões do mercado (até mesmo o código de barras obrigatório dos livros é acompanhado de uma piadinha, com uma ordem de arrancá-lo, cantando: “A humanidade será feliz no dia em que o último burocrata for enforcado com as tripas do último capitalista”), ao mesmo tempo em que eles participando de festivais. Como driblar esse afastamento do que ele mesmo chamou de guetos dos quadrinhos e a criação artística. Ora, ele explica, “é preciso levar em consideração que precisamos de papel, de funcionários, que a crise afeta isso tudo”. “Estamos na França e pertencemos ao mercado francês”. A “verdadeira luta”, no seu campo, não é apenas pela arte. Mas “é preciso encarar o comércio que piora, levar em conta o salário dos funcionários, para que tudo funcione”.

Comentei a longevidade de seus projetos. “Você sente orgulho disso?”. “Faço meu trabalho. Quando um autor quer publicar, tem um livro, um projeto, a gente o ajuda a realizar esse projeto […] Não é questão de ficar ‘contente’. Se isso dura… Isso é bom. Cada vez mais, mais premiações em Angoulême. Não é o mais importante. O que me dá prazer é fazer um projeto com um autor, publicar seu livro, ver o sucesso do autor em um segundo momento […]. Tenho a impressão de trabalhar como em outra época. Para mim o normal, o ordinário, se tornou anacrônico… porque os outros editores pensam em coisas rentáveis… tenho a impressão de fazer as coisas como no passado, e isso não me atrapalha. Isso me deixa contente […] É um tipo de resistência”.

* Correção: a palavra “bédéaste”, como o Menu me explicou depois, só é utilizada peles “muito, muito estúpidos, e certamente esses não somos nós”. Foi mal aí.

Publicado por mckamiquase

Maria Clara Ramos Carneiro on ResearchGate https://orcid.org/0000-0003-2332-1109

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