[Teteia Pura] Os zines da Frida e Xavier Ramos

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Sei que tem muita gente que ainda pensa que zine é um material menor. E sei também que muita gente acha que é coisa de quadrinista das antigas, que fanzineiro é raça extinta. E sei também que muita gente ainda nem ouviu falar.  Porém, não só temos ótimos zines publicados no país (vide os trampos do Diego Gerlach – um chegou até a ganhar o Grampo deste ano), como tem uma dupla de irmãos bem jovens por aí produzindo uns que são teteia pura.

Eu conheci os zines da Frida e do Xavier Ramos na CCXP de 2015. Foi a simpatia dos dois que me fez comprar os zines, admito. Mas não foi um tiro na água, não. Cheguei em casa e li os dois primeiros: Causos e Um Dia Ruim. Já achei maneiro que, nessa era digital, onde todo mundo faz webcomic e Catarse, eles preferiram partir pro formato fanzine, daqueles bem crus mesmo, clássicos dos anos 80, com folhas A4 dobradas ao meio e grampeadas, com o endereço do facebook e o site  anotados a mão na quarta capa. Adorei. Acho importante que quadrinistas que estão começando experimentem com os formatos impressos, vejam como ficam os desenhos, tamanho, trabalhem pra espalhar o material por aí, sintam o trampo na mão.

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Li a história e fiquei muito, mas muito, impressionado mesmo com o conteúdo. Era bem diferente do que eu tinha imaginado. Ambos já têm uma noção segura de narrativa, disposição dos quadros, de como colocar os balões, clareza nos desenhos e expressões dos personagens (ponto pro letreiramento manual) e fluxo das histórias, que são redondinhas. Muito quadrinista marmanjo ainda se bate com esses elementos.

Agora, foi com as histórias em si que eu fiquei mais de cara. Eles têm uma noção de ironia e sarcasmo que não é o esperado pra idade deles, e digo isso no melhor dos sentidos. As histórias são autobiográficas, no melhor estilo Harvey Pekar. Eles tiram onda deles mesmos, contam sobre paixões, problemas com mosquitos, ir pra escola… o último zine deles, Suco de Laranja, (no qual a produção ficou mais ousada, com uma capa de cor laranja e papel especial), abre com um cachorro perguntando ao leitor: “Já percebeu que os humanos têm a estranha maneira de dividir o tempo?”. O Xavier, hoje, tá na faixa dos 17 anos e a Frida nos 13 e quando fizeram a primeira publicação tinham 14 e 10 (ou algo assim). Entende o que eu digo com “não é o esperado”? Você pensava nessas coisas aos 10 anos de idade?

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Os zines dos irmãos Ramos têm uma vibe boa, são honestíssimos e competentes. Claro que existe limitações, mas são devido à idade e tempo de prática. Ao mesmo tempo, os zines deles não são “bons pra idade deles”, são bons pra qualquer idade e dão uma surra em muito quadrinista já rodado. Se você ainda não conhece o trampo dos dois, vai atrás que são materiais bons e acessíveis (visite o Tumblr deles aqui).

Eu não tenho a menor dúvida de que a gente está vendo a gênese de dois geniozinhos dos quadrinhos. Contanto, claro, que eles permaneçam nesta estrada.

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