Tags

, , , , , , , , , , , ,

25681598004_14093b4ef4_z

Tem uma cena de Sangre di mi sangre (Astiberri, 2012) que  me vem sempre à cabeça quando quero pensar na poética específica dos quadrinhos. A cena é uma casa de vários andares e janelas grandes, alguém bate à porta. O diálogo entre a mãe de uma das crianças com a pequena visita é observado por outra criança, dentro da casa, que desce as escadas olhando pelas janelas. O movimento de descida faz o tempo passar na história, enquanto não há outras marcas de tempo na página: não há sarjeta, mas é a repetição do personagem seguindo o movimento ocidental da escrita (que desce pela página como ele desce a escada) que nos dá a impressão de sucessão no tempo ali.

O desenho de um redondo quase Botero de Lola Lorente é bordado com flores, borboletas, folhas, detalhes ondulados dos móveis, rendas das roupas, arabescos. Os motivos enfeitando as cenas nos levam diretamente para o feminino do desenho: a decoração por nada, sem simbolismo. Como no art nouveau se contrapondo ao futurismo, encontrando eco no feminismo que brota do flower power e no shoujo manga.

90060932_o

Sangre di mi sangre, © Lola Lorente. Não é essa cena de que falo acima: meu exemplar não veio na mudança, só achei essas páginas aqui na internet

Um desenho que busca o feminino da página, no sentido em que trabalha o delicado e o silêncio para produzir essa história cheia de segredos.

Uma festa está para acontecer na pequena cidade. Dois adolescentes que se gostam, duas mães desesperadas. Uma criança solitária, que brinca com seres fantásticos. Alguma coisa acontece, mas as crianças não podem saber, nem falar tudo.

É o primeiro livro em quadrinhos da espanhola Lola Lorente, que desenha esse romance sutil sobre medos da infância, à la Edward Gorey. A autora recebeu o Prêmio Autor Revelación no Salão del Cómic de Barcelona, em 2012, com esse livro, que também foi publicado na França (Chair de ma chair, pela Cambourakis).

clubprivado2lolalorente_950

lola_lorente_sangredemisangre_p1cc1