[Vem Comigo] the bus

Acho que a categoria mais conveniente pra esse livro, em vez de [Vem comigo] seria “vamos de ônibus”. O ponto aqui é falar do livro de Paul Kirchner the bus (Tanibis, 2012) (isso, caixa baixa mesmo). Já pegou essa linha aí?

O livro the bus reúne tiras publicadas por Paul Kirchner na revista Heavy Metal, entre 1979 e 1985. O autor se impõe uma restrição: todas suas tiras são sobre o mesmo personagem no ponto de ônibus, a espera do coletivo, sobre o que pode acontecer lá dentro, sobre o desembarque ou sobre o próprio ônibus em si. A isso tudo está liberado unir o surreal e o fantástico.

O personagem é regular (esse aí de cima), embora contracene com outros passageiros e motoristas com o passar das tiras. O ônibus sempre muda seu letreiro, os modelos variam um pouco mas o número da linha, quando visível, é o 2233.

O traço preto e branco, bastante preocupado na representação da realidade com suas proporções e medidas, mesmo que diante de situações BIZONHAS, aproxima muito o livro de Kirchner do surrealismo. O efeito, calcado no fantástico, mesmo que passe por algo como crítica, é pra gerar humor no absurdo. E desse humor, talvez, absurdados, voltarmos aos nossos coletivos e ver se há encaixe possível entre a vida aqui e a ficção ali.

Veja esta tira:

Toda a situação aqui é de ordem da técnica das proporções pra figuras em planos diferentes. A surpresa é se tratar do mesmo plano, portanto, de um inseto gigante, ora crescido pela perspectiva, ora crescido fantasticamente, de fato (expliquei a piada, DSCLP). Ou seja, o funcionamento da página (meia página, vai) acima é uma marotice com a técnica de desenho.

Outras vezes, o surpreendente vem em uma solução de enredo inesperada, como esta:

A ideia de ir em busca de diversas possibilidades diante do pressuposto “homem espera o/entra no/desce do ônibus” me faz ligar esse trabalho ao de Raymond Queneau (favorito de outra autora deste Balbúrdia) e seu Exercícios de Estilo (a partir de enredo simples, Queneau cria variações estilísticas para uma mesma história). Não é exatamente o caso aqui, mas elementos basilares são constantes e Kirchner varia o desenvolvimento, sem mudar o estilo do desenho, mas sim parte da relação que se espera que um personagem tenha com um ambiente realista. Quero dizer: a mudança que Kirchner entrega não está na forma do material, mas na expectativa da leitura.

O elemento provinciano do transporte urbano (acho que pouca coisa é mais vida real do que pegar ônibus pro trabalho), apresentado em traço que se não é naturalista, ainda é de realismo caprichado, me surpreende todas as vezes que muda uma dessas relações estáveis de real que imagino estar ali. Exemplifico com estas duas aqui:

Na primeira, temos primeiro o improvável em ação para em seguida ter a entrada do fantástico que reordena a ordem daquele mundo ficcional. Na segunda, a surpresa é justamente que a ação sensata e realista do ônibus desagrada os outros veículos.

Cabe ainda uma discussão bacana sobre urbanismo e mobilidade urbana, mas estico essa conversa pra quando falar do livro do do Andy Singer. Por hora, aqui tem outras tiras (punguei o link do Ramon). Não vá se perder por aí.

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