[A Consciência de Zeni] Maus

Com a ocupação militar no Rio de Janeiro, o 485, linha do ônibus que pego para sair da Ilha do Fundão (onde fica o curso de Letras [onde faço meu doutorado {o que explica, um pouco, meu sumiço deste blog}]), passa por uma barreira do exército. Não sei bem qual a finalidade dessa ação, mas sempre tem por ali soldados com metralhadora, carros de combate, caminhões.

O que interessa da foto acima, é justamente o caminhão ao fundo.

Na imagem, o motorista descansa, pois dado o calor que se faz no RJ, ou você está muito ligado, com a cabeça a mil em alguma coisa (tipo eleição), ou está caindo de sono (há também modelos híbridos, com pessoas sonhando que dormem e outras dormindo pra acordar).

A foto ajuda pouco, por isso peço boa-vontade e fé no meu testemunho. No painel próximo ao volante há um livro. Espera um pouco que vamos pruns contextos.

Acho que todo mundo tá sabendo, mas o candidato Bolsonaro tem usado na sua campanha de diversos recursos fascistas (propaganda pro Goebbels aplaudir em pé) e desenrolado aquele discurso autoritário básico de quem se põe como messias salvador da terra devastada que está o país (certo exagero retórico mil vezes repetido e tido já como fato).

O Balbúrdia é focado em quadrinhos, mas damos nossas puxadas à esquerda, porque é assim que somos e assim que gostamos. Nessas horas de tensão, me vêm à mente quadrinhos que colam bem, eu acho, com o momento. Um desses é Maus, de Art Spiegelman.

Obra de qualidade ética e estética de largo reconhecimento, mistura autoficção, relato, metanarrativa e ficção propriamente dita e conta como o pai de Art, judeu polonês, sobreviveu ao campo de concentração nazista. O nazismo, por incrível que pareça, precisa ser explicado, ainda que rapidamente.

Foi um movimento de ultradireita, baseado na busca de um inimigo comum (aí entra o avivamento do preconceito contra homossexuais, ciganos e judeus), valorização de quem era alemão, além de ser populista e militarista. O que quer dizer que o estado alemão, na figura de seus aparelhos repressivos, como exército e polícia, cumpria as ordens de punir aquele que infringisse a lei. E infringir a lei às vezes queria dizer ser diferente da expectativa do alemão considerado certo (aquele tal projeto de eugenia, de apenas alguns genes ou, no caso, um único povo perfeito).

Pra criar esse inimigo comum, foi feito muita propagação de mentiras e de meias-verdades. Uma delas dizia que os judeus eram ratos e que se não fossem controlados, acabariam com aquela raça alemã loira e maneira.

Maus, o título do livro de Spiegelman, é a palavra em alemão pra rato. Lá, os judeus são desenhados como ratos e os alemães como gatos. Em um nível quadrinístico, dialoga com a tradição de funny animals (tipo Disney); em um nível histórico, com essa propaganda abjeta; juntando tudo, não sei nem o que dizer.

Maus é um livro sobre viver, sobre resistir. Ali dentro há história não só da vida (indivíduo), mas da vida (sobrevivência). É um livro desses que a leitura pode nos dar uma perspectiva sobre o risco do autoritarismo, do eles versus nós, do Brasil acima de tudo.

O motorista dormia e o livro fechado sobre o painel é Maus.

 

E o que você acha?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s