[1, 2, 3… já!] Listas!

CLBD10[1]

Oficina virtual de quadrinhos potenciais

Coluna para difundir e motivar atividades Oulipo-oubapianas, em que todos possam participar enviando suas produções a partir das proposições.

Eu disse, na última coluna, que não paro de falar em Gerner. VENHA ME CALAR! Então, outra técnica que ele usa muito – e é queridíssima pelos oulipianos – é a confecção de listas.

Deixar o apartamento. Esvaziar o local. Levantar o acampamento. Deixar vazio. Limpar o chão.
Inventariar arrumar classificar selecionar
Eliminar descartar sucatear
Quebrar
Queimar
Descer descerrar despregar descolar desparafusar
Desprender
Desligar destacar cortar tirar
Cortar
Enrolar
Empacotar embalar amarrar entrelaçar empilhar
Juntar entulhar atar envolver proteger recobrir envelopar prender
Tirar carregar levantar
Varrer
Fechar
Partir.

(“Mudança”. Georges Perec, Espèces d’espaces)

 Contre la bande dessinée (Gerner, 2008), que abre esse texto, é um grande inventário de citações, listadas de formas diferentes. A página acima, por exemplo (que você pode “ler” na notinha de rodapé), lista vários trocadilhos a partir da “banda desenhada”, usado por autores e, sobretudo, jornalistas. Toda vez que morre um autor, é “banda dizimada”. Os autores de quadrinhos, um “bando de degenerados” (“banda de autores”, o título da artpress sobre quadrinhos). Vários outros de seus livros partem dessa organização, de uma pesquisa ad nauseam de determinado elemento e como esse elemento se relaciona com o contexto.

 Complete as listas com outras palavras de listas:

substantivos:

repertório
catálogo
lista
conjunto
itinerário
léxico
coleção
inventário
enciclopédia
dicionário
arranjo
cadeia
livraria
arquivo

 

adjetivando a lista:

entropia
sistema
litania
encadeamento

 

contendo na lista:

itens
componentes
alíneas
artigos
elementos
modos de organização de lista:

alfabeticamente
geograficamente
numericamente
cronologicamente
aleatoriamente

 

verbos:

repertoriar
listar
elencar
enumerar

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Anjos e demônios de compêndios cristãos e os respectivos desenhos de Doré (circa 1868) e diabinhos extraídos do Dicionário infernal de Plancy (1863).

A lista é um modo ancestral de apontar para o infinito. O estudioso das listas Bernard Sève aponta, também, que a lista é sobretudo visual, sobretudo escrita. E é uma escrita em que o enunciador se retira. Em o belíssimo A vertigem da lista (traduzido por Eliana Aguiar, Record, 2010), Umberto Eco catalogou várias formas de lista na história das artes. Da enumeração efusiva ao excesso, a lista é uma forma universal de dizer o infinito.

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A profusão de unicórnios combatida pelos soldados de Alexandre (Livre des conquestes et faits d’Alexandre, século XV e reproduzida por Eco) me fez lembrar da multiplicação de si por Killoffer, apontar para a profusão, ou o “excesso coerente” que Eco enxerga nesse Magritte abaixo.

René Magritte, Golconda, 1956

A lista não é, obviamente, exclusiva do Oulipo ou do Oubapo (os oulipianos e oubapianos não são donos de nada, mas eles são grandes catalogadores de formas existentes de se produzir textos, quadrinhos). Remexendo a nossa biblioteca (uma lista de livros), Lielson e eu encontramos alguns quadrinhos em que a composição passa por alguma listagem.

Jaguar obsolescência programada bombaQuino lista

Alguns dos primeiros quadrinhos que me chamaram a atenção estavam em um mesmo livro, Para entender o texto, de Platão e Fiorin (1991). Meu pai usava o livro para suas aulas de português, e dali também decorei meus primeiros poemas. Engraçado que ambos os quadrinhos trabalham por uma lógica de listas. Jaguar lista “cronologicamente” a sucessão de formas de destruição, Quino inventaria visualmente os objetos de consumo consumindo o homem.

A revista MAD abusava das listas, já uma paródia dos almanaques (anuários que faziam o papel da internet antigamente com informações aleatórias). A primeira das imagens abaixo tem texto de Frank Jacobs e arte de George Woodbridge; a segunda foi escrita por Al Jaffee e desenhada por Bob Clarke.

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Obrigada, Paulinho, por nos presentear com esses achados (de 1970 e 1968, respectivamente).

Em Buldogma, de Wagner Willian (Veneta, 2016), encontrei pelo menos duas páginas que evidenciam listas, aí abaixo: os balões agrupados de vozes diversas apontam para o burburinho da cena. No pezinho da página, várias folhas de árvores fogem, outra forma visual que aponta para uma continuidade, que não está totalmente contida ali. Na outra, janelas e telas de computador pululam pela página, dando essa impressão de múltiplas abas abertas, o exagero. Ao mesmo tempo em que elas parecem desconexas, a gente tenta ligar as informações que estão ali para tentar descobrir o que Deisy Mantovani busca.

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Alice Bechdel, sobretudo desde Fun Home (Conrad, 2007), também retrata suas investigações pessoais em seus livros. Como verdadeira pesquisadora, ela nos mostra o que coleta, desde fotografias, objetos, a palavras no dicionário.

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Já Aline Zouvi, nossa querida amiga e colega, fez um quadrinho apenas listando autores e suas doenças.

Aline Zouvi, Condição, 2017

Para mostrar a repetição e o tédio do cárcere, Kazuichi Hanawa em Na Prisão (Conrad, 2005) usa várias listas, como esta página retratando as refeições.

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A lista de ingredientes, algo tão antigo que Umberto Eco encontrou algo parecido nesses hieróglifos de 2000 a.C., com a refeição da princesa Nefertiabet.

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Nada mais simples que uma lista, nada mais anódino, nada menos problemático. Lista-se para nada esquecer, joga-se fora a lista após o uso, eis tudo.

(Bernard Sève. De Haut en bas: philosophie des listes, 2010)

Hervé Bourhis fez de seus livros grandes inventários de fatos. Como no Pequeno Livro do Rock (Conrad, 2010).

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Harvey Pekar tem um conto a partir de lista de coisas que ele odeia, e a progressão narrativa acontece por essa enumeração.

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Harvey Pekar e Robert Crumb. Bob & Harry. Dois anti-heróis americanos. Conrad, 2006

99 exercices in style, livro de Matt Madden que incrivelmente ainda não foi traduzido no Brasil [e sobre o qual já falei aqui], recenseia variadas formas de se fazer quadrinhos. Entre elas, Madden inventaria os itens que aparecem em sua página matriz.

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Bem, a lista é infinita.

PRODUÇÃO

André Valente, ágil e magnífico, me enviou sua resposta à última coluna. Postei no grupo sobre oubapo e quadrinhos sob restrições do Matt Madden, no Facebook, e um amigo me perguntou se era do próprio Jochen Gerner (quem inspirou a restrição da última coluna e também adorou). Rapaz de futuro, até ele mesmo, o Richard McGuire curtiu.

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André Valente rearranja Aqui, de Richard McGuire

Em outras paragens, mais textuais, apresentei mais uma oficina de Oulipo, dessa vez para meus caros alunos do curso de francês da Universidade do Estado da Bahia, onde dou aula, em Alagoinhas.

Pedi aos participantes para “lipogramar” o verso “Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá”, da Canção do Exílio de Gonçalves Dias. Ao retirarem a letra “e”, os alunos escreveram:

Na minha nação há plantas, os sabiás cantarolando (Débora)

Na minha casa há arbustos, o sabiá canta (Vanessa)

Nas palmas da minha pátria canta o sabiá (Deiziane)

No quintal há palmitos, canta o sabiá (Jocelia)

No lar habita o sabiá cantor (essa é minha)

 

Depois, no Twitter, variações sem a letra “a”, produziram:

Meu terreno tem um coqueiro de onde tine o turdus rufiventris. (André Valente, @andrevalente)

Meu condomínio tem um brejo onde se exprime o quero-quero. (Mayumi, @dolangueando)

No meu sítio tem um tico-tico que é tenor e fornece uns berro show. (Dafne, @dafnezz)

No meu lote tem tuiuiú que redobre (Thales Lira, @thaleslira)

Quer fazer mais uma sem i, o, u? Fico no aguardo. Falei do lipograma aqui.

CRIAÇÃO

As listas são uma excelente ferramenta para criação. Você pode começar fazendo um “toró de miolo”, como Lielson traduz brainstorm, e ver, primeiro, o que você quer inventoriar. Pode ser uma lista de objetos que estão à sua frente, e desenhá-los em ordem aleatória. Pode ser uma lista de ações cotidianas (ver este quadrinho abaixo da Claire Brétécher) ou construir uma narrativa citando substantivos (como em “Circuito Fechado (1)”, conto de Ricardo Ramos) ou aquilo que você conseguir imaginar fazer com uma lista.

Vamos lá?

1,

2,

3…

já!

 

Manda para a gente? mailto:balburdeio@gmail.com

 

[1] A história em quadrinhos (H.Q.) [banda desenhada]
Designada pelo acrônimo HQ, ou agaquê
bando de tarados
bando de degenerados
bando de selvagens
banda dizimada
banda designada
contrabando desenhado
debandada narrativa
banda passageira
banda [fita] magnética legível por leitores especiais [trocadilho com fita cassete]

 

história em quadrinhos interativa
realizada em desenho vetorial

 

álbuns flexíveis de má reputação
mau gênero [gênero ruim]
gênero maldito

 

álbum ilustrado
a cores
capa
flexível

 

uma história
em quadrinhos é
um objeto

 

uma mídia

 

um artesanato popular
um folclore simpático
uma indústria
um produto comercial de consumo
um entretenimento de massa
um meio de comunicação de massa
uma ferramenta de comunicação eficaz
um meio plástico

 

xícara   jarra     livro

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