[Vem comigo] 1h25

Judith Forest -
1h25, 5e Couche (5c), 2009

Esses dias conversei com umas amigas sobre autobiografias (talvez a conversa vaze em áudio por aí, quem sabe), e acabei esquecendo de falar desse marco em um período em que se publicava muitas autobiografias – e autobiografias femininas – no circuito franco-belga.

Judith Forest é estudante, tem menos de 26 anos – conforme nos informa a passagem de trem que abre o livro, trem de Paris a Bruxelas que leva 1h25. Passagem rápida, mas cara, pelo Thalys, o trem rápido que liga as duas capitais.

E começa com uma frase barthesiana, “Tudo o que não é dito nesse livro é verdade também” – Roland Barthes, meu amor, vocês já sabem, escrevia no começo de sua autobiografia em fragmentos “Tudo isso pode ser compreendido como dito por um personagem de romance”, e mistura elementos de seu pensamento e seu cotidiano ou, como ele mesmo chamou, costura pedacinhos de sua vida – os biografemas – em uma rede de significados, costura essa que não deixa de ser uma ficção. (ROLAND BARTHES, Leyla Perrone-Moisés. Roland Barthes por Roland Barthes. São Paulo: Estação Liberdade, 2003.)

Forest, por sua vez, já nos avisa que é uma estudante de Belas-Artes, vinda de uma cidade do interior, e que nos descortina aos poucos esse cotidiano. Entramos pela janela no seu quartinho, olhamos seus objetos dispersos, sua referência literária, até enxergá-la em sua cama; olhamos, depois, pedaços de seu corpo. Judith vai se exibindo pra gente ao mesmo tempo em que forma seu traço de desenhista. Há fotos dos autores do mesmo circuito de sua editora (5e Couche) no meio do livro, autores que ela encontra em noitadas que acabam invariavelmente com uma trepada sem compromisso com algum deles. François Olislaeger, por exemplo, que mais tarde publicaria entrevistas desenhadas na revista Lapin, é um dos autores/atores que interagem com Judith, parecendo até ser desenhado por ele mesmo.

Em meio ao marasmo cotidiano, é um desenho bonito, e o tédio de Judith nos toca, ao mesmo tempo que as suas aventuras amorosas nos interessam. Nos tornamos voyeurs dessa realidade banal, pequeno-burguesa, de uma estudante fazendo arte para ninguém ainda.

Foto de Judith Forest, na revista Actualité

O livro também é creditado a Cecilia dos Santos, colorista, que dá o tom verde-água ao traço de Judith. O sucesso imediato do romance gráfico (ou gibizão, ©Gabriela Gülich) nos festivais, no período, chamou a atenção para a jovem autora, que publicou logo depois o livro Momon. Em entrevista, ela diz:

[…[parece que o simples fato de existir é evidente para a maioria das pessoas… Para mim, não sei. Também não sei por quê. Enfim, estou longe de tudo isso. Me chateia um pouco pensar nisso. Parece que essa mesa existe, que esse café é leve demais, que teus filhos são bonitos… […] Bom, eu precisava existir de verdade, com 1h25. Enfim, eu acreditava que se podia existir por um livro. Que bastava dizer “eu existo” em um livro para que se tornasse verdade. Haha

Em outra entrevista, ela diz: “a autenticidade não existe”.

Não tem nenhuma importância que o que é contado em um livro autobiográfico seja verdadeiro ou falso. De qualquer forma, é como se conta um sonho. Desde o momento em que se conta um sonho, se dá a ele uma estrutura que não existia antes. Quando se conta a própria vida, é a mesma coisa: sempre se faz ficção. A autenticidade não existe, e não tem importância, pois uma emoção nunca é falsa.

A verdade que Judith Forest nos conta sobre as autobiografias, em que a emoção prescinde de um real, e que tudo passa pelo filtro da ficção, é importante. A verdade de uma narrativa autobiográfica, disse a Dominique Goblet, não coincide necessariamente com o que aconteceu na realidade. No entanto, para além de nos alertar para o jogo sempre presente da ficção, os livros de Forest descosturam a própria ideia de uma autobiografia feminina, ao demonstrar sua banalidade, e os estereótipos quanto a existência de um “traço feminino” ou uma “narrativa feminina”. Há certo mal-estar à la Margarite Duras, dessa vez em quadrinhos, e que ganha até mais profundidade em Momon, quando a história parece como se despencando, até seus traços.

Momon
O desmonte dos traços em Momon, 5c, 2011

Porém, Judith Forest não existe, de verdade. Nem Cecilia dos Santos, nem Momon (que ainda são citados nos agradecimentos de 1h25). A Wikipédia nos dá ano e região de nascimento, e aborda o rumor dela ser criação dos autores e seus editores Xavier Löwenthal, William HenneThomas Boivin. E eles não enganaram apenas a imprensa especializada em quadrinhos. Les Inrockutibles, revista pop do mundo audiovisual francês, ou a revista generalista Le Point: todos foram surpreendidos. Uma pegadinha tremenda, em um momento em que a internet já corria de vento em popa e os rumores poderiam ser facilmente desmontados, a farsa só foi descoberta após a publicação de sua segunda obra: eles tinham contratado uma atriz para dar entrevistas e autografar livros nos festivais para reforçar a suposta autenticidade de uma autobiografia tão íntima e reveladora.

Os jornais boquiabertos com a descoberta da pegadinha

Li seus livros apenas em 2016, conhecia a história por detrás a um tempo. Na mesma semana, Judith Forest me adicionou no Facebook!

Pergunto a Judith se haverá novos livros, e ela me respondeu que não seria para logo.

Em 2018, a 5e Couche publicou Journal, reunindo toda a obra da autora em seus três anos de carreira, “antes de sumir sem deixar vestígio”. O livro tem contribuições de Xavier Löwenthal, Thomas Boivin, William Henne, mas também François Olislaeger, Fabrice Neaud e Thierry Groensteen, entre outros.

Publicado por mckamiquase

Maria Clara Ramos Carneiro on ResearchGate https://orcid.org/0000-0003-2332-1109

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