[Vem comigo] O que conto quando conto uma piada

Tem já bastante tempo, recebemos uns zines de um amigo de amigos. Umas linhas mal desenhadas, um senso de humor corrosivo. Era logo no começo do Balbúrdia, acabei postergando escrever sobre os zines e o humor. Estou sempre postergando escrever alguma coisa aqui – juro que tenho até uma lista –, e agora o mesmo autor reuniu muitos dos cartuns e tiras que vinham lá daquela época em um livrinho charmoso, cor de rosa-chiclete: O que conto quando conto uma piada, e o autor é o Marcos Batista.

A editora e loja do autor: https://www.atrapalho.com.br

O formato do livro é elegante, literalmente um quadrinho. Tem prefácio do Diego Gerlach, da Cynthia Bonacossa, projeto gráfico do Stêvz e participação especial com desenhos de Allan Sieber, Adão Iturrusgarai, Bruno Maron, Cynthia, do Falleiros e Fi. E o livro contou com o apoios governamentais para ser publicado, algo bastante importante neste momento de retrocesso para a cena editorial e cultural no país.

Como dizia, há tempos queria escrever sobre humor, e o livro rosa do Batista me trouxe de novo à cabeça essas questões. O humor daquele zine era corrosivo mesmo? Fui atrás das caixas de zine e me amaldiçoei que ainda não etiquetei o que tem em casa uma, então nos resta a minha memória furada… No compilado, vejo que há várias tendências, de fato da corrosão a uma patetice singela. O tudo, porém, alinhavado por um traço bem sincero, digo sincero tanto na franqueza em ser desse jeito tosco de fato quanto na piada franco-atiradora que até parece fácil: piadas de cu e um desenho simples.

Acho difícil explicar piadas, e é algo que sempre fico pensando. Ok, não preciso explicar a piada, e não vou explicar, tampouco debater a piada: penso nas diferentes formas de fazer humor, para a gente tentar entender juntos como rimos.

Nosso humorista em tela, por exemplo, junta os olhões do Nani, a infâmia do Adão, a corrosão do Allan, pra fazer humor que escancara a hipocrisia da classe média ou só pra rir à toa mesmo.

Lendo tudo junto, lembrei do tanto de piada ruim de bicha que a gente (temos a mesma idade) cresceu ouvindo. Com ruim, quero dizer aquelas piadas feitas para rir de pessoas que já estão em uma situação bem desfavorável. E depois, pensei no levante queer de se reapropriar do xingamento e parar de se esconder, de ligar o foda-se (que não é o mesmo foda-se que seu personagem o Super Foda-se). Porque Batista vai fazer, sim, piada de bicha, porém suas piadas têm essa potência de levante também, ele tem lugar de falo.

O Gerlach fala, em seu prefácio, de desconforto quando se deparou com as primeiras páginas que ele leu do Batista: “é a expressão do riso do carrasco ou do injustiçado? Ou seria o carrasco um injustiçado? Ela é homofóbica ou… é gay?!” Algumas de suas piadas operam da seguinte forma: o objeto ainda pode ser a bicha “que dá mais”, só que o enunciador da piada é outro, e essa posição é importante. O contexto importa pacas (algo que a internet tenta matar). E, de forma alguma, não é um comodismo ou adesão ao velho escárnio da ideologia que usa o humor para oprimir.

Em teoria, cartum foi feito para conseguir ser engraçado atemporalmente. O quadro único teria uma função de ser um lampejo sintético de humor, diferente dos quadrinhos em que se pressupõe uma narrativa, mesmo se curta (3 quadros). Lembro que quadrinho e cartum são primos mas não são a mesma coisa, porém, o que queria frisar aqui, é que essa pressuposição do atemporal no cartum é bem ruim: ela esquece que a História também compõe o sentido. Posso achar graça de um cartum antigo, mas entre sua primeira publicação e minha nova leitura há camadas distintas de tempo. Não que ele deixe de fazer sentido ao ser colocado em uma caixa acústica sem acesso ao mundo lá fora, ainda faz. Mas mesmo um cartum que ficou guardadinho 2 séculos pode ganhar novos sentidos quando entendemos o tempo de quando foi desenhado, ao entendimento de para quem ele se dirigia, e como esse entendimento é compreendido pela gente hoje. E isso não quer dizer que a gente precise conhecer o autor para entendê-lo, mas o contexto e os paratextos, pois é o conjunto de textos e arte produzidos pelo sujeito e seu entorno que fazem dele autor. Da mesma forma, faz parte desse movimento deixar de rir de algumas coisas, e um mesmo sujeito pode deixar de lado uma piada antiga, como tantos de nossos cartunistas e tantos autores já falaram antes.

Digo isso, e friso, e sublinho porque há certa pressa em catalogar sujeitos que produzem arte, cultura, humor a partir apenas dos elementos mais visíveis. E essa pressa está tanto do lado dos que querem transformar o mundo, quanto do lado dos que querem mantê-lo como está. O problema nas catalogações é quando elas servem para descreditar, limitar os discursos, oprimir alguns dizeres. Como querer dizer que usar um determinado significante ou palavra vai automaticamente querer dizer sempre a mesma coisa. Por exemplo, dizer “vai virar jacaré” pode significar algo extremamente positivo ou negativo, dependendo de quem diz. Da mesma forma, achar que só porque o texto tem como protagonista um sujeito torpe, automaticamente seu autor (ou seu leitor!) concordam com as opiniões asquerosas do personagem. Por isso esses dois longos parágrafos, para discordar da ideia da “atemporalidade” do cartum e para repetir: o contexto importa pacas.

Às vezes acho que o tal desconforto em ler alguns dos cartuns e tiras do Batista é aquele velho chute no calcanhar do tabu. Mas, aí, o autor vai lá e ainda diz que está fazendo “poesia”.

Para mim o bom cartum é análogo à boa poesia. Gosto da transcendência, da fuga para o belo, para o riso libertador, para a suspensão da tragédia. Gosto de rir do que não é engraçado, por que a engenhosidade de tirar graça da tragédia, da luta que é viver, apazigua algo muito forte em mim. Gosto do que me faz rir, não tenho um tipo de humor.

Batista, em entrevista para o Ramon Vitral

Engraçado (sim, achei curioso e esbocei um leve sorriso aqui), é o segundo autor que compara seu quadrinho à poesia. André Dahmer especifica que a tira é como um haikai, em sua forma curta e tripartida (no caso de suas tiras em três quadros). E o interessante no que Batista diz é que a poesia aponta para o sair do estado natural(naturalizado) das coisas: transcender, fugir, suspender. Concordo, em certo sentido, mas como materialista wannabe, e totalmente descrente de escapatória, diria que a poesia e o humor operam por deslocamentos bem táteis e localizados. Muda-se as posições dos signos, como uma letra ou palavra que muda de lugar – a lambda do Peru passa a ser lida como a lambida no Peru (e esse jogo de palavras aqui pode ganhar uma camada bem mais ácida se você reconhecer de que estou falando). Esse deslocamento da letra provoca mudanças nas expectativas, sacudindo uma poeira no cérebro, e a gente passa a prestar mais atenção ao que é “normalmente” dito, às normas da escrita, ao senso comum.

Ok, agora estou explicando a piada: vocês viram que ele colocou deus em uma posição em que a gente não costuma ver deus, usando uma forma “bíblica” para dizer aquilo, praticamente uma piada genética.

Enfim, estou aqui matutando essas questões desde que comecei a lê-lo. Mais recentemente, ele me pediu uma linha, bem curta, para colocar no livro. Ficou assim:

“Batista alterna piadas infames de querer matar o mensageiro e aquele tipo de humor perspicaz que deixa mais inteligente quem ri. Às vezes no mesmo cartum, nesse desenho sempre urgente. Um desgraçado, o Batista.”


Promoção e pra mocinha também

Enfim, vou deixar vocês lerem e me dizer o que acham. Ele mandou alguns exemplares para o Balbúrdia, um já vai para a Biblioteca Central da UFSM, e outro pode ir para você: diga aí do que você acha graça. Aqui nos comentários mesmo, e na sexta 16/07/21 vamos sortear entre os leitores um exemplar.

Publicado por mckamiquase

Maria Clara Ramos Carneiro on ResearchGate https://orcid.org/0000-0003-2332-1109

2 comentários em “[Vem comigo] O que conto quando conto uma piada

  1. Eu acho graça do absurdo, do exagero, porque o que deveria ser impossível ou improvável é tudo o que vejo normalizado ao meu redor. Nada como quando uma piada me desarma e eu tenho que buscar em mim o que a piada quer me dizer sobre mim ou a forma como enxergo o mundo. Mas tem vezes que só um barulho de peido já garante minha risada do dia também…

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