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No sábado passado, dia 11 de fevereiro de 2017, o mangaka Jiro Taniguchi morreu.

Fiquei bem pegado com a morte do Taniguchi, meio sem saber direito o porquê. Ele teve só 3 mangás publicados no Brasil e eu só li o Gourmet (Conrad, 2009) – os outros são O livro do vento (2006); e Seton v.1 (2008), ambos pela Panini.

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Gourmet é isso: esse microcosmo que me faz perder o sentido da realidade, ao mesmo tempo que me puxa diretamente à memória. Em diversas histórias, só vemos um vendedor que perdeu a hora de comer e está invariavelmente faminto. Procura onde e o quê comer. O livro é só isso, o resto é o que importa.

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A passagem do tempo não é lenta, é outra. E a variação de ritmo e andamentos sempre foram aspectos de meu interesse em diversas artes. E por causa disso, Gourmet entrou na minha biblioteca afetiva.

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Não só isso, claro: também porque almocei muitas vezes sozinho nas correrias da faculdade.

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Tive ainda identificação com a situação e com o interesse por comer, com a alegria de comer.

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Com a morte de Jiro Taniguchi do sábado dediquei meu resto de dia e domingo mergulhar no máximo possível de obras dele que eu conseguisse.

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Nisso reli Gourmet, li Ícaro (com roteiro do Moebius), Um bairro distante (Harukana Machi-e), A montanha mágica (Mahou no Yama), Um zoológico no inverno (Fuyu no Dōbutsuen), Um céu radiante (Hare Yuku Sora), Terra dos sonhos (Inu wo Kau). De lá até hoje, passei 3 vezes por The walking man (Aruku Ito).

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Acho The walking man a obra base de Taniguchi e sem dúvida é minha favorita. É nela que estão diversos elementos que vão ser trabalhados depois com mais e menos destaque nas obras seguintes: a relação humano-animais; as caminhadas; a observação; a saudade; a volta no tempo.

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Eu costumo correr e tentar resolver tudo logo e Taniguchi põe a mão no meu ombro e fala “calma, rapaz”.

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E acho que algo que precisamos é mesmo parar, curtir o tempo passando e observar melhor.

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Existe um movimento na narrativa de Taniguchi que é o abaixo (o concreto, o material, o chão que pisamos) e o acima (o cósmico, o transcendente, o céu que voamos).

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Taniguchi pede um “calma, gente” geral. A pressa nos empurra, nos cansa; cada coisa a seu tempo.

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escada

Não há jornada do herói, há um passeio do protagonista. E a gente vai com ele.

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Taniguchi se foi, mas ainda podemos passear por sua obra.

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Mas sem pressa.