[A Consciência de Zeni] Confesso que grampei

Com o Grampo, esse premiozinho que tanto me envaidece de ter criado junto do Ramon Vitral, vêm o momento de escrever sobre o porquê de cada lista. Ou eu gostaria de ver cada um dos nossos amados juradinhos falando de suas escolhas. Na real, é a fissura da lista que eu tenho.

Que a lista ela mesma se basta, não só acredito, como defendo e professo. Mas acho que o grande lance é quando essa lista se desdobra. Se desdobra, até, em outras listas. Não se trata, claro, de explicar o mundo e caçar certezas, mas especular mesmo a partir de um ponto (ou de 10 pontos).

Tem algumas perguntas que tento responder lendo a lista dos outros e que vou tagarelar aqui pra vocês. Vou me usar de exemplo, basicamente porque pode ser e porque me é fácil. Primeiro, a minha lista:

1- Aqui (Cia das Letras), por Richard McGuire (tradução: Érico Assis);
2- Angola Janga – Uma História de Palmares (Veneta), por Marcelo D’Salete;
3- Sem Dó (todavia), por Luli Penna;
4- O Homem que Passeia (Devir), por Jiro Taniguchi (tradução: Arnaldo Oka);
5- Mensur (Cia das Letras), por Rafael Coutinho;
6- Ghost World (Nemo), por Daniel Clowes (tradução: Érico Assis);
7- Ilha de São Galalau (Independente), por André Valente;
8- Alho Poró (La Gougotte), por Bianca Pinheiro;
9- Os Limites do Walmor (Maria Nanquim), por Bruno Maron e Ricardo Coimbra;
10- Um Ano Inteiro (Independente), por Galvão Bertazzi.

E aqui as perguntas hipotéticas:

Como que essa lista não tem AQUELEGIBIMUITOMANEIRO?

Olha, desculpa, mas não vou pedir desculpas.

Página de Aqui, de Richard McGuire

As listas são pessoais, né? Eu escolho os livros que considero os mais massa (a próxima pergunta se esforça para explicar isso), mas todos os jurados do Grampo são proibidos de elencarem materiais nos quais trabalharam. E eis aqui minha chance de arrolar mais uma lista, a lista dos livros que trabalhei e não pude votar: Atômica: A cidade mais fria (Darkside), de Antony Johnston e Sam Hart (tradução de Érico Assis), Black Hole (Darkside), de Charles Burns (tradução de Daniel Pellizzari), Bulevar dos Sonhos Partidos (todavia), de Kim Deitch (tradução de Maria Clara Carneiro), Creepshow (Darkside), de Stephen King e Bernie Wrightson (tradução de Érico Assis), Doppler (independente), de Doug Lira, Rafa Louzada e Rainor Marinho, Eventos Semiapocalípticos: Eduardo e Afonso (La Gougoutte), de Yoshi Tice, Fragmentos do Horror (Darkside), de Junji Ito (tradução de Akemi Ono), O Maestro, o Cuco e a Lenda (Texugo), de Wagner Willian, Tabloide (Veneta), de Leandro M. Melite, Wytches (Darkside), de Scott Snyder e Jock (tradução de Érico Assis).

Fora esses livros de cima, você pode me culpar por qualquer outra ausência (eu lido bem com isso, fique tranquilo).

Qual o sentido desses livros estarem todos juntos aí?

Existe um ~conceito~ que atravessa as minhas escolhas. PORÉM, isso não implica que todos os listantes devem ter uma lógica, muito menos a mesma que a minha. No meu caso, eu tenho uma quedinha inegável por obras que dão aquela investida na forma. Daí Aqui vai em primeiro, não tem jeito. Eu não consegui nem falar de como aqui(lo) me deixa feliz. Ao mesmo tempo, há uma preocupação com a diversidade na lista, em ter independentes, republicações, webcomics, mangá, humor.

Angola Janga é um épico em quadrinhos, no sentido do gênero aristotélico mesmo. Fiquei louco quando li. Já Sem Dó, de Luli Penna, é uma preciosidade: uma história simples, com uma narrativa bem encaixada, desenho e soluções gráficos que me fizeram sonhar com o livro.

Há também o caso de O Homem que Passeia, de Jiro Taniguchi, um daqueles quadrinhos que me tocam num nível muito pessoal (escrevi um pouco sobre ele já). Mensur, do Rafael Coutinho é aquele livrão, aqueles que aparece um a cada de vez em quando, com um tema estranho, execução de alta técnica, personagens com profundidade.

Gosto muito do trabalho do Clowes, e Ghost World é um dos meus livros favoritos da vida. Cabia bonitinho na vaga de republicação que eu queria na minha lista. Em A Ilha de São Galalau a parada fica séria: André Valente criou um sistema de enquetes para conduzir a narrativa e CONSEGUIU INCLUIR ISSO COMO PARTE DA HISTÓRIA.

Alho Poró pegou a minha vaga de história de modelo clássico muito bem conduzida. O trabalho da Bianca Pinheiro aqui é exemplar, pra usar em aula de roteiro mesmo. Já Os Limites do Walmor é ótimo porque junta logo dois dos quadrinistas que acho mais engraçados; têm muita personalidade e levadas diferentes de humor, mas há realmente um diálogo entre Maron e Coimbra.

Encerro com a maratona do Galvão Bertazzi em Um Ano Inteiro, que publicou uma tira por dia em todos os dias do ano de 2017. T O D O S  O S  D I A S. Sério, tem algo de performático nesse ato.

Ah, ele deve ter se arrependido de algum livro que não entrou nessa lista aí.

Página de Maia, de Denny Chang

Olha, te falar que nos dois Grampos anteriores tenho arrependimentos brutais e ambos se ligam a obras de Denny Chang (Maia em 2015 e O Futuro em 2016). Já que esse ano não teve obra dele, vou ter de me arrepender pela ausência de Boxe (La Gougoutte), de Alexandre Lourenço.

Você leu tudo pra chegar nessa lista, cara?

Não, não li. Não há condições de cronograma, de finanças e de saúde mental pra ler que tudo que sai no Brasil.

(Pra não precisar colocar a pergunta do “mas como que tu me faz a lista daí”, eu já respondo a seguir)

Bem, com alguma reflexão sobre o que me deixou sabores amargos, doces ou podres nas leituras, aos poucos se cria uma estante mental sobre coisas que você gosta e que não gosta. Acho bastante saudável ter uma “lista podre”, formado por autores que você não gosta e não precisa ler (só abro exceções se uma obra for firmemente recomendado por algum leitor que os gostos emparelham com os meus).

Posso dizer que leio muito pouco, quase nada mesmo, super-heróis, quadrinhos infantis e aventuras do naipe franco-belga, só pra deixar alguns exemplos.

 

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