[Tradução] A censura, estúpida, sempre

Em 2005, a revista de arte contemporânea art press convidou o escritor e jornalista Bernard Joubert para dirigir uma edição especial sobre quadrinhos. Além de convocar pessoas importantes para a empreitada, entre quadrinistas, editores, pesquisadores da arte e dos quadrinhos (Évariste Blanchet, Jean-Christophe Menu, Marie José Mondzain, Thierry Smolderen…), Joubert também assina um artigo sobre sua especialidade, a censura nas histórias em quadrinhos.

Para quem acha que isso ficou no passado, Joubert trazia um fato muito recente, sobre um autor que se fazia conhecer naquela época, e hoje é inegável sua fama, Riad Sattouf (com três volumes da sua série Árabe do futuro publicada no Brasil). Mais de dez anos depois da arenga, Sattouf continua bem popular e se tornou um dos autores mais lidos na França, sempre descrevendo o cotidiano absurdo dos jovens que observa, ou ainda lembranças passadas.

Terceiro volume da obra de Sattouf disponível no Brasil

Apresentamos só o texto, sem os documentos apresentados na revista, dando apenas alguns exemplos das absurdidades levantadas nos documentos oficiais.

 

A censura, estúpida, sempre

Típico da França: uma comissão é encarregada de vigiar livros e periódicos de qualquer natureza para que não apresentem perigo para a juventude. Para documentar isso, uma de suas experiências recentes. 

Historicamente, a Comissão de vigilância e de controle das publicações destinadas à juventude[1] foi a inimiga declarada da história em quadrinhos, da qual ela combateu até sua forma, sonhando em erradicá-la. Na época de seu pleno poder, ela mandou proibir, no setor de infanto-juvenis, álbuns de Blake e Mortimer (em 1954 e 1962), Johan e Pirlouit (1954), Buck Danny (1954, 1958), Jerry Spring (1958), Gil Jourdan (1959), Alix (1965)…; no setor adulto, autores como Forest (1965), Pichard (1973, 1983), Willem (1974), Slocombe (1978), Crepax (1970, 1977, 1983)… Quase meio século desde sua criação, as múmias familialistas formam ainda o núcleo mais ativo, mas ela perdeu sua influência nos ministérios relacionados (Interior, Justiça e Cultura) e só tem como último poder o de intimidar os editores por convocações e advertências. Quando a revista mensal de HQ Psikopat lhe desagradou, em 2002, ou o álbum Blonde platine de Adrian Tomine (Seuil, 2003), ela interveio com os editores por, respectivamente, telefone e carta. Era com eles ceder ou não à autocensura.

É uma tendência moderna de certos cronistas literários de se considerarem auxiliares da polícia. Em 2002, foi uma jornalista do Point que transmitiu, antes da publicação, o romance Rose bonbon de Nicolas Jones-Gorlin (Gallimard) a uma associação jurídica. No início de 2004, aconteceu a mesma coisa com Ma circonsision [Minha circuncisão], lembranças desenhadas de Riad Sattouf publicada por Bréal, editor escolar e universitário, em sua nova coleção “Bréal jeunesse” [infanto-juvenil], dirigida por Joann Sfar, o autor de HQ. Antes que o livro chegasse nas livrarias, a associação Lire-jeunesse [Ler infanto-juvenis] mandou para a Comissão de vigilância um release denunciando-o. Mais tarde no mesmo ano, Sattouf se tornaria colaborador regular do Libération (seu No Sex in New York durante todo o verão) e de Charlie hebdo, mas, por hora, aos olhos da organização, ele é um desconhecido com um nome árabe, e nem percebem que a obra é autobiográfica (no entanto, está indicado). O que Sattouf conta nesse livro é sua infância na Síria, sua própria vida aos oito anos, nos anos 1980: a violência e sistema de castigos corporais (sobretudo a punição do atli, consistindo em bater nos alunos indisciplinados sob a planta dos pés até antes das férias), o antissemitismo institucionalizado e ensinado, e, pequeno drama pessoal, o medo e a dor causados por uma circuncisão que ele não queria. A leitura feita pela Comissão […] vota por uma proibição aos menores de dezoito anos e pede que o processem judicialmente por incitação ao ódio racial: posto que Sattouf mostra sob um dia negativo um pai (o seu), crianças (entre as quais ele mesmo) e o sistema educativo dos sírios, e por isso, Sattouf é racista com os sírios. A comissão, que se contenta normalmente de só olhar o que lhe submetem, requisita o exame de outros livros do mesmo autor, persuadida de ter desmascarado algum monstro de quem precisavam purgar prateleiras.

Página de Ma circoncision, de Riad Sattouf

Dois meses depois, debandada. Não somente as autoridades não pareciam ter pressa em prosseguir com essa advertência[2], mas, sobretudo, a grande mídia saudou de forma elogiosa a publicação de Ma circoncision. Em sua crônica cultural de France Inter, Vincet Josse aconselhou:

Descubra Riad Sattouf. (…) A mensagem passa claramente ao jovem leitor: a intolerância leva à exclusão. É preciso então combatê-la.

A presidente da Comissão assinala que há uma “contradição”. Para ser claro: essa assembleia de especialistas não seriam majoritariamente formada por imbecis? É, pois é, minha senhora, tem disso. E não é novo.

***

Pena que o livro só foi publicado com um prefácio lembrando da lei de 1949 que protegia a juventude, como notou esse articulista… Mas além de ter sido publicado em 2004, ele foi reeditado pela L’Association, em 2008, mas hoje está fora de catálogo (N. da T.).

Trechinhos que destaco nos documentos que acompanham o artigo.

Do ministério da justiça francês:

Os sírios, a partir dos quadros em que são desenhados os membros dessa comunidade, são descritos como antissemitas, violentos, sádicos, bárbaros, belicosos, corruptos, machistas, incestuosos, todos os elementos que só podem fazer nascer no espírito do leitor, e mais ainda quando se trata de jovens adolescentes, um sentimento de rejeição em relação à comunidade síria.”

Ata de reunião da comissão do 1o de abril de 2004:

O “Manual do cabaço” se dirige a jovens meninos no início do quinto ano, atormentados pela puberdade e tendo como única preocupação o fato de ter relações sexuais com jovens meninas.

E seguem recomendando a não publicação do livro pela verossimilhança das ideias machistas que esses garotos emitem (ora, não conseguem ver que essa “veiculação de preconceitos” era justamente para mostrar que existe, sim, esses preconceitos e o próprio autor está questionando ao apresentá-los…).

 

Texto de Bernard Joubert (tradução de Maria Clara Carneiro)


[1] Cuja ação, na verdade, não é de forma alguma limitada às edições infantis. Aconteceu deles examinarem art press e querer julgá-la “tolerável”.

[2] Não houve nenhuma proibição, nem processo, mas as conclusões da comissão levaram, de qualquer forma, a interpelações na polícia de Sattouf e Bertrand Pirel, diretor das edições Bréal. Pode-se consultar em detalhe esses interrogatórios na Charlie hebdo, datada de 19 de maio de 2004, e Caravan, de Joann Sfar (L’Association, 2005).

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