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Não solta da minha mão, de Alexandre Lourenço

Coluna de hoje é jogo rápido: por que escolhi os quadrinhos que escolhi na minha lista do Grampo 2017? Segue a leitura.

A ideia do Grampo não é premiar a melhor HQ, mas talvez aquele livro que mais perambulou pela cabeça dos diversos listantes que escolhemos. É uma escolha de que obra foi “gostada” por mais pessoas diferentes.

portanto, escolhi as 10 obras da minha lista porque me gustan.

🙂

Além disso, existem algumas razões que posso determinar e esse é o serviço deste texto; outro motivo é comentar obras que por um fiapo não entraram na lista. Fechar uma lista de só 10 leituras do coração foi um processo cruel e divertido, que gerou a necessidade de elaborar critérios sobre quem entrava e quem saía.

Sopa de lágrimas (Veneta), de Gilbert Hernandez (tradução de Mariana Della Valle) eu tirei da lista por ter feito a preparação de texto do material (ser autor, tradutor ou editor de um quadrinho impossibilitava votar nele), mas eu amo além da conta esse livro.

Lutei até o último segundo para incluir O futuro (independente), do Denny Chang na lista. Ano passado não incluí Maia (Narval) na minha lista e regularmente o fantasma do bom-senso me dá um tapão na orelha no meio da noite. Mas de novo não achei espaço pra um dos quadrinhos que mais me tocaram no ano.

Sendero luminoso (Veneta), de Alfredo Villar, Luís Rossell e Jesús Cossio (tradução de Rogério de Campos e Barbara Zocal), também é o tipo de livro completinho, com paratextos que valorizam muito e foi duro não achar uma posição pra ele na lista.

Finório (Zarabatana), de Marco Oliveira também me balançou; que nem Know-haole # 5 (Independente), de Diego Gerlach, mas como tinha o # 4, resolvi deixar aquele slot pra outra obra. Topografias (Piqui), por Taís Koshino, Julia Balthazar, Bárbara Malagoli, Lovelove6, Mariana Paraizo e Paula Puiupo, edição independente linda tive de sacrificar porque são só 10. Falando neles:

1) Você é um babaca, Bernardo (Mino), por Alexandre Lourenço;

O autor das tiras do Robô esmaga conseguiu migrar pro formato impresso e pra narrativa longa sem perder suas principais características. A proposta narrativa do Alexandre pra passagem de tempo em Você é um babaca, Bernardo é para fãs da linguagem chorarem emocionados. A obra tem ousadia formal e uma narrativa fantástica (no sentido de “fora do cotidiano”) embalada em desenhos miúdos.

2) Know-haole #4 (Vibe Tronxa Comix), por Diego Gerlach;

Poucas obras conseguiram empacotar tanta coisa do Brasil golpeado de 2016 do que essa HQ, que tem o subtítulo “Eduardo Cunha é o bandido da luz vermelha”. A mistura de referências é a base do trabalho do Gerlach há anos, e aqui esse encontro com uma história de paranoia de vermes infecciosos, num formato fanzine com desenho limpo resulta num quadrinho poderoso.

3) Modelo vivo (Boitempo), por Laerte;

Coletânea de histórias clássicas da Laerte, mesclada com desenhos de modelo vivo mais recentes. O encontro dessas Laertes via arte resulta numa edição só com acertos.

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4) sem título (Antílope), por Mariana Paraizo;

Páginas com muito branco e um pouco de lápis servem de registro a uma pesquisa sobre paisagem. De novo, a Mariana Paraizo esculhamba a noção tradicional do que é quadrinho e faz uma obra que vai gerar perguntas, muitas perguntas.

5) Fixação por insetos (Antílope), por DW Ribatski;

Essa coletânea de histórias fantásticas em que a narrativa é sequencial, sim, mas não necessariamente os seus eventos. É um livro com uso muito inteligente da elipse natural à linguagem dos quadrinhos.

6) Desconstruindo Una (Nemo), por Una (tradução: Carol Christo);

Esse quadrinho deveria aparecer em primeiro lugar na minha lista, dada a importância de sua proposta (falar sobre a violência contra a mulher), seu formato (ensaio em quadrinhos) e sua linguagem de grades bem soltas e colagens. Só que uma tradução com pouco cuidado e um mau uso do letreiramento deixaram o quadrinho aqui em sexto mesmo.

7) A agência de viagens Lemming (Devir), por José Carlos Fernandes;

Eu sou o leitor ideal do José Carlos Fernandes: gosto do ritmo lento das histórias, das piadas escondidas, do humor enviesado, do que é borgiano na obra e de tudo isso ser em português europeu.

8) Bulldogma (Veneta), por Wagner Willian;

O primeiro colocado do Grampo 2017! Além de eu gostar do quadrinho por ele mesmo, eu adoro o entorno da obra, com as entrevistas da Mulher Barbada e a ligação com outras obras, tipo Lobisomem sem barba e Deus é o Jiraya (e parece que com o que vem em 2017 também), criando um Wagner Willianverso (WWVerso, pros íntimos).

9) Hinário nacional (Veneta), por Marcello Quintanilha;

Apesar de publicada depois, essa coletânea de histórias curtas do Quintanillha oferece um passeio por toda sua obra, seja temático, seja narrativo, já que as histórias foram feitas antes, durante e depois de seus dois últimos trabalhos (Tungstênio e Talco de vidro).

10) A gigantesca barba do mal (Nemo), por Stephen Collins (tradução: Eduardo Soares).

O primo desencontrado de Alexandre Lourenço. Eu vejo muita semelhança no trabalho dos dois, embora Collins invista pesado numa onda meio Emmanuel Carrère, meio fábula. Gosto muito de algumas soluções narrativas do livro.

Deu pra sacar que minha lista privilegia aquilo que eu entendo por novas ideias de narrativa quadrinística. Isso não é critério obrigatório, mas acho bom deixar claro o ponto de onde eu falo e principalmente, o que eu consigo ver daqui. E essa foi a intenção com a explicação da lista.

Sem falar que fazer e falar da lista é sempre massa.