[Cuba Liber] Grampo 2017 por Liber Paz

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Eu desconfio de listas, prêmios ou rankings. Não tenho certeza se realmente servem pra alguma coisa, além de mexer com egos. Afinal, quando dizemos que fulano ou beltrana é o ou a “melhor” do ano,  sempre cabe perguntar: melhor pra quem? Por quê? Quais os critérios? Quais as intenções em escolher um melhor? Continue lendo “[Cuba Liber] Grampo 2017 por Liber Paz”

[Teteia Puta]Lista Grampo

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O Grampo é a única lista que eu faço. Não tenho esse hábito. Já brinquei muito com isso, mas o meu coração já sofreu demais. Tenho dificuldades em hierarquizar as coisas que eu gosto (claro que tem coisas que você naturalmente prefere do que outras, mas em muitos casos, a competição é difícil), mudo de opinião sobre uma obra em relação a outra com certa frequência, leio, descubro, aprendo, releio e aprendo mais e os critérios mudam (#ContinueEstudando). Mas o Grampo tá aí, em toda sua glória, no segundo ano, e eu mentiria se dissesse que foi sofrido e que não foi divertido pacas, por isso espero sofrer com isso por muitos anos.

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[A consciência de Zeni] Minha lista do Grampo 2017

Não solta da minha mão, de Alexandre Lourenço

Coluna de hoje é jogo rápido: por que escolhi os quadrinhos que escolhi na minha lista do Grampo 2017? Segue a leitura.

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[Vem comigo] A agência de viagens Lemming

Até que demorei pra falar desse gibi no Balbúrdia. Porque José Carlos Fernandes trabalhamos (né, Dandara?).

Aqui, o impulso borgeano de Fernandes segue ativo, mas a referência maior é outro escritor: Italo Calvino (sobretudo o de Cidades invisíveis). Continue lendo “[Vem comigo] A agência de viagens Lemming”

[Com Vocês] Dandara Palankof: Descompassos

DESCOMPASSOS – A Pior Banda do Mundo, de José Carlos Fernandes

por Dandara Palankof

Quando o Lielson – uma pessoa sábia, assim como todo mundo que gosta de The National (NOTA BALBÚRDIA: questão controversa; a sabedoria do Lielson só é defendida por um dos membros da equipe) – FALOU AQUI NO BALBÚRDIA do José Carlos Fernandes, me lembrei logo do meu exemplar do primeiro volume de A Pior Banda do Mundo – provavelmente o gibi mais conhecido desse autor português, pelo menos aqui no Brasil.


Ele foi minha única indicação de presente no famigerado amigo oculto da firma, que era pra ninguém vir com gracinhas. Na época – uns 13 anos atrás – eu estava começando a me aventurar pelas histórias em quadrinhos de fora do grande mercado americano e, quando me deparei com o gibi na única (até hoje) comic shop de Brasília, onde eu morava na época, logo fiquei a fim dele por motivos de:

1. Que nome maneiro: O Quiosque da Utopia.
2. Que puta traço elegante.
3. Nunca tinha lido um gibi português.


Hoje, é um dos gibis mais acabadinhos aqui da minha estante, o que foi resultado de muitos empréstimos. Sou dessas que empresta seus quadrinhos. E sim, já me arrependi muito, tenho uma lista razoável de desaparecidos e uma considerável de feridos em batalha. E alguns desses estão entre os meus preferidos. Porque é justamente essa a razão pra eu emprestar quadrinhos – eu fico tão feliz de ter lido aquilo e que essa obra de alguma forma tenha mudado meu universo particular, que preciso compartilhar esse amor.

O Quiosque da Utopia foi justamente isso: amor à primeira leitura. E que se renova a cada vez que eu o releio (o que fatalmente acontece pelo menos quando ele retorna de um outro empréstimo). Daí a caçar os outros livros, foi um pulo.

Uma identificação imediata e duradoura com as reflexões melancólicas (#goticasuave), mas quase leves – uma leveza que se dá por um quase distanciamento, resultado da sensação onírica que as páginas transmitem. Um sonho muito, mas muito familiar.


Os volumes de A Pior Banda do Mundo são compostos de historietas de duas páginas, passadas em uma mesma cidade surreal, com ares de uma aparente decrepitude que avança lentamente, junto da maresia, a fumaça das fábricas em seus arredores e os tabloides de celebridades. Povoada por pessoas que estão sempre em busca de algo, seja o mais simples ou o mais inefável. Como os integrantes da tal Pior Banda, que ensaiam diariamente há 29 anos e nunca conseguem tocar a mesma música. Mas estão sempre lá, em busca da melodia que os preencha.

Personagens que se cruzam em tentativas de escapar de seu cotidiano modorrento, imersos nas engrenagens burocráticas do dia a dia, esmagados pela passagem do tempo, perdidos em recordações, paralisados pela infinitude das possibilidades, maravilhados com os pequenos enigmas da existência, imersos em pequenices soberbas.


Tudo narrado em um texto que mistura elementos do fantástico a uma ironia sutil, quase delicada. De uma inventividade ímpar, criando coisas, lugares, palavras – todos absurdos – que conduzem o leitor a conclusões agridoces sobre as angústias da vida contemporânea e da existência como um todo. Retratados visualmente por desenhos em tons de sépia (nos cenários) e preto e branco (nas pessoas – particularmente marcadas e carregadas, sempre). Como se tudo isso tivesse acontecido, na verdade, há muito tempo, e Fernandes estivesse nos contando sobre essa nossa porção do real de algum lugar muito distante, onde ele pode estar quase em paz com a atordoante multiplicidade de idiossincrasias, com o eterno conflito entre a beleza e o horror de se estar vivo.

(Pra falar a verdade, visualmente, as histórias de Fernandes se parecem com as imagens que me evocavam os poemas de Álvaro de Campos. Lembro vagamente de dizerem que esse desalento português é herança dos tempos de fascinação e medo de se partir para o mar. Mas divago.)

A série A Pior Banda do Mundo foi publicada pela editora Devir, em seis livros; em ordem: O Quiosque da Utopia; O Museu Nacional do Acessório e do Irrelevante; As Ruínas de Babel; A Grande Enciclopédia do Conhecimento Obsoleto; O Depósito dos Refugos Postais e Os Arquivos do Prodigioso e do Paranormal. Em 2013, a Devir relançou os três primeiros em um único volume; e fez o mesmo com os três seguintes em 2014.

     
É verdade que, vez ou outra, há uma escorregadela em algum clichê – mas ora, quem nunca? Ainda mais se tratando de um gibi que se propõe a refletir sobre nossa própria matéria; e como disse um outro cara de quem eu gosto muito, clichês só o são por serem verdadeiros. Mesmo assim, é uma série que merece entrar na lista de obras indispensáveis das histórias em quadrinhos.

Dandara Palankof é tradutora e pesquisadora de histórias em quadrinhos. Gosta de gibi por carma, já que foi com um nas mãos que aprendeu a ler. Hoje, pesquisa, traduz e escreve a respeito de histórias em quadrinhos (existem pretensões de escrever uma, também, mas até aí, quem nunca, né?). Nós do Balbúrdia adoramos ela <3.