[Bartheman] Defesa ilustrada da crítica das histórias em quadrinhos

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Ilustração do © Diego Gerlach (2017) para o empreendimento Camisas Balbúrdia

Nesse mês que termina, participamos de eventos e conversas, e lemos outras tantas discussões dos mais diversos níveis sobre a crítica. Escrevi sobre isso há bastante tempo, para a Antílope 1, mas uma das coisas mais comuns quando a gente escreve sobre a crítica, é que a massa crítica é bem reduzida, as bolhas são limitadas, e a gente acaba só “pregando para convertidos”. Fica chato me repetir e, ainda por cima, acho deselegante entrar nesse assunto, nessas conversas com meu distintivo de Crítica. Mas então, como aqui é um espaço seguro, e só a Maíra e o namorado dela vão ler mesmo, vou só apresentar algumas coisas que vêm roendo minha cachola, fazendo, em primeiro lugar, um apanhadinho histórico, depois mais específico sobre as histórias em quadrinhos, e em seguida uma breve avaliação dessa guerra polissêmica sobre escrever sobre histórias em quadrinhos.

Bom, a gente já sabe que o Aristóteles começa com isso de estudos das obras, gêneros, definições. E que ele começa descrevendo, mas seus sucessores – sobretudo Horácio – toma a descrição sobre a arte e a transforma em prescrição. Daí se passaram séculos em que escrever sobre arte, em geral, era sobretudo separar a “boa arte” da “arte ruim”, e esse debate longo ainda passeia pelo século XXI – pois a história não é uma linha reta, e inclui tantos tempos num mesmo tempo. A imprensa (do Gutemberg) e a imprensa (o jornal) foram o grande cisma do escrever sobre a arte: 1) a facilidade de difusão ampliou o número de leitores; 2) os textos considerados exemplares passaram a ser mais estudados nas escolas; 3) o ensino fez do comentário sobre os textos uma prática comum; 4) a divulgação de autores e obras se tornou crucial para a sobrevivência do meio; 5) a crítica de jornal se torna a baliza e o espaço de reflexão dos leitores e autores…

Peanuts, de Charles Schulz

Veja só que, entre 1 e 5, temos duas especialidades que se formam: o crítico erudito, mais relacionado ao estudo das obras no ensino, e o crítico de jornal, que trabalha para os leitores de seu tempo. São duas funções distintas, em que a primeira analisa a obra com finalidade menos pragmática que a segunda. Um, à serviço do estudo das relações entre obra, autor, tempo, o outro se dirige ao possível público da obra. Enunciadores diferentes, a destinatários diferentes, funções diferentes. Não há hierarquia entre tais funções, mas apenas formas diferentes de lidar com a escrita sobre o objeto de arte, seja ele qual for. Aqui, a gente já vê que a crítica assume em todos os casos o papel de escrever sobre o objeto de arte, tem como função primordial uma metalinguagem.

Cartum de Arnaldo Branco

Assim, no século XX, quando surgem os primeiros grupos de amantes de quadrinhos querendo escrever sobre quadrinhos, a primeira ideia era a de divulgar fatos e preservar a memória. Esses primeiros estudiosos também vão se dizer críticos, e beleza. A questão, como vão apontar mais tarde, é que, sem uma metodologia de estudo, com um texto sobretudo apologético, acabam por apenas se concentrar a exaltar os quadrinhos e não a, de fato, analisá-los. O problema é que, como na maior parte dos efeitos de manada, o grupo se fecha e fecha os argumentos a qualquer… crítica…

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O crítico de arte, por Jochen Gerner © L’Association, 2008

Bem, apesar do Brasil ter sediado até a primeira feira internacional de quadrinhos, a gente sabe que a hegemonia desse discurso crítico vai se especializar na França e na Bélgica, e o SOCERLID (Sociedade Civil de Estudo e Pesquisa (recherche) das Literaturas Desenhadas), que surge de dissidências dos primeiros clubes, se erige como grande autoridade da crítica especializada em quadrinhos. Mas eles, e ainda muitos de seus descendentes ou análogos, centram todo esse papo na nostalgia, nos grandes feitos. O Charles Ameline escreveu longos textos para demonstrar como esse discurso acaba por infantilizar as histórias em quadrinhos; o Thierry Groensteen também fez o livro Un objet culturel non identifié demonstrando uma série de artifícios discursivos dos críticos e dos produtores que contribuíam para um encerramento dos quadrinhos em um gueto; o Harry Morgan também abordou muito isso. Em uma linha bem geral, eles notam que 1) o discurso do fã só chega na superfície da crítica, sem uma análise real do objeto; 2) o enciclopedismo (a coleta de informações gerais sobre o assunto) fica apenas no nível da acumulação, sem colocar em relação ou compreender os fatos; 3) o documentarismo (a sucessão de exposições e escritos nostálgicos) também só serve para o elogio da obra, que toma importância por causa dos afetos do fã, mas não traz nenhuma reflexão sobre o assunto em geral. Ou seja, um discurso que gira sobre si, e só alcança a superfície. Como o Ameline continua, foi preciso que autores pegassem em armas, digo, em teclados de computadores (já estávamos nos anos 2000 e teve muita troca de e-mail) para que esse discurso se aprofundasse em uma crítica… erudita? Não estou querendo dizer, nem ser pedante, mas no sentido de investigação, aprofundamento, estudo mais refinado do que o apologético exaltado. Uma crítica que aponte argumentos, e não se baseie em uma simples digressão de opinião pessoal, com baixa emissão de adjetivos.

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Téoricos de quadrinhos, segundo Jochen Gerner © L’Association, 2008

Então, assim, a gente pode resumir em três ou quatro formas diferentes de crítica, desde 1) a expressão de uma opinião pessoal, 2) a divulgação de uma obra da parte do autor-editor e o veículo de imprensa que reproduz o release sem aposto; 3) a avaliação de um leitor mais especializado que elabora uma argumentação sobre o assunto; 4) um estudo analítico mais elaborado ainda, ou erudito, sobre o assunto. Dessas categorias de enunciador-função, temos 1) o leitor; 2) o produtor; 3) o jornalista; 4) o crítico ou o teórico. Jornalista e crítico competem um tanto essa escrita privilegiada, a diferença talvez é que um pense mais em termos do contemporâneo (a divulgação, o registro) e o outro em como esse texto se insere nesse tempo, estabelecer outras relações para além de sugerir ou não a leitura de uma obra e, talvez, esboçar teorias. Para mim, quando eu escrevo, e me coloco como crítica, é porque, para além do registro (mas também penso nele), é importante verificar que reflexões uma determinada obra permite (falo da noção de efeitos, aqui). Se a gente pensa em profissionalizar tais serviços, isso não se dá plenamente na manutenção econômica deles, mas começa na possibilidade desses sujeitos que escrevem sobre trabalhos de outros sujeitos de penetrarem a linguagem escrita, usarem recursos mais refinados do texto.

Quem imaginaria que um desenho animado iria explicar tão bem esse lugar do crítico de jornal em uma determinada cena.

No Balbúrdia, a gente fica nessa posição móvel entre a resenha e o ensaio, quer dizer, entre uma crítica mais jornalística e outra mais… literata? Pedro Moura, em sua palestra do 5 de novembro, na des.gráfica, advogou a sua escrita mais acadêmica, que fica nesse nível erudito de tentar aprofundar o objeto, desvendá-lo, pensá-lo para além da superfície. Ele destacou que a crítica é primordialmente escrita, porque ela se faz na argumentação, via textos. Comentei, dias mais tarde, na Miolo(s), que a crítica, por se fazer dos confrontos (desde a dialética hegeliana de tese contra antítese às justaposições de que autores mais contemporâneos, como Georges Didi-Huberman falam), ela também pode se dar em outras linguagens (Didi-Huberman cita Brecht que escreve seu diário justapondo imagens de um mesmo dia de jornal, acrescentando legendas: o conjunto imagem e texto também formula uma crítica). Mas, aqui, eu que só sei exercer palavras, me resumo a esse embate textual. Outra função dessa crítica que se submerge no texto, é a de convidar o leitor à reflexão, ajudar na criação de repertório (de autores, de obras, de vocabulário, ferramentas discursivas). Ao optar por escrever ensaios, a gente tenta não cair no didatismo, mas que o próprio texto também tenha uma qualidade informacional e de estilo. Afinal, é importante dizer as coisas, mas o como se diz é primordial: a forma também diz seu conteúdo, a forma também aponta o conteúdo, e o conteúdo também pode ditar a forma. Mas isso são outras considerações teóricas, é outro assunto.

Nos debates que surgiram nessas últimas semanas em torno do tema, muita cobrança se fez, direcionada, principalmente, a veículos tradicionais, quem tem um modelo mais jornalístico, e muitas vezes mais dirigido ao fã, feito por fãs – modelo que, muitas vezes, corre e cai nesse risco de se fechar nos mesmos assuntos e sujeitos. Não vai ser a última, nem foi a primeira vez, que li pessoas emburradas reclamando dos confrontos, como se colocar em questão um objeto significasse destrui-lo. Eu mesma já recebi ataques diretamente em meu velho blog ou ao vivo por questionar hoje coisas tão evidentes como a predominância de um discurso e quadrinhos voltados para o adolescente hétero-cis hiperssexualizado, como se questionar isso fosse fragilizar o “meio” quadrinhos. Acredito, no entanto, que é preciso rever os tabus, porque se não o discurso se estagna e não se produz conhecimento algum, só nostalgia. As revoluções nos quadrinhos, tanto a possibilidade de novas criações, novas formas de se distribuir e novas formas de se estudar ou criticar, vieram desses confrontos. É importante reconhecer de que lugar falamos, de onde falamos, para quem: aqui, por exemplo, nós fazemos crítica, sendo lidos ou não pela hegemonia da cena – a gente existe. Você pode não gostar do modelo, ninguém precisa ler, mas já existimos, nós, o Raio Laser, Érico Assis em seus blogs (e na Folha de S. Paulo!), Alexandre Linck, Thiago Borges, a Suplemento, as críticas no Facebook do Diego Gerlach, o Kitinete HQ. E há jornalistas interessados no registro que ajudam a fornecer a base de nosso trabalho, documentando o que vamos pesquisar, como o Vitralizado, a Plaf, Lady’s Comics, o Diletante Profissional, Papo Zine, até mesmo o Universo HQ, espaço em que 100% dos fundadores do Balbúrdia já atuaram.

Caco Galhardo© – a Formação do crítico

Nem sempre me agradam as escritas ou os pontos de vista, porém, é importante a divergência. Se não, como eu saberia que estou certa? (cof cof)

Estou citando veículos e pessoas exclusivamente ligados aos quadrinhos, além de tudo, amigos, porque, como já disse, vivemos em bolhas, mas também são profissionais que respeito pela dedicação, apuro e competência nesse ofício de escrever sobre quadrinhos.

O tal texto da Antílope foi escrito entre 2012 e 2013. Vi muita coisa mudar, sobretudo, um aperfeiçoamento de fato profissional da escrita, do jornalismo, da crítica, da teoria sobre quadrinhos. Nesse ínterim, produzi uma tese em que tentei aprofundar a questão teórica – outro texto que só foi lido pelo Érico Assis. Ainda assim, continuo e continuamos escrevendo porque, acredito, assim a gente produz conhecimento, a gente movimenta o discurso. Mesmo se de pouquinhos em pouquinhos leitores.

Bartheman

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