[Bartheman] Vamos ter que falar da Mônica

O bom desse blog é a gente se ater a críticas sobre o que se gosta: pra mim, os quadrinhos que tomam de assalto o discurso dominante e subvertem as coisas, fazem a gente imaginar um mundo esteticamente mais complexo. Mas aí aparecem alguns assuntos que, para além dos limites do atual, requerem uma perspectiva histórica, estética que, aí também, acho irresistível – e importante – comentar. Tipo o “almanaque militar da Mônica”, i.e., A Turma da Mônica e a Indústria de Defesa Brasileira.

O meio quadrinhos é um ambiente cultural múltiplo, coberto por fenômenos diferentes das mais diversas ordens plásticas, narrativas, de posições estéticas e éticas sendo constantemente tomadas em ângulos diferentes. Não é possível pensar esse todo de uma mesma forma, e são precisos conhecimentos e aparatos diferentes para lê-los. E a Turma da Mônica é um incontornável nesse meio, qualquer que seja sua preferência em quadrinhos: fez uma parte importante de nossa formação de leitor brasileiro da mídia e de leitor tout court (nos ensinou, de fato, a ler letrinhas para além das imagens), marcou indelevelmente nosso imaginário e integra toda a nossa cultura. Assim, a crítica que segue vai se ater ao impacto desse almanaque enquanto objeto cultural, tentar ver os aspectos estéticos e de produção desse quadrinho para tentar pensar o meio quadrinho e o entorno afetado por esse almanaque-discurso.

Então vamos ao assunto.

A Mauricio de Sousa Produções é a empresa que concentra os usos da marca Turma da Mônica, realizando os licenciamentos dela e a criação de sua razão de existência, o gibi de banca, livros e animações derivados. Ela também cede a mesma marca para produtos, e todos sabemos que vai de boneca a cenoura, passando também pela produção de livros ilustrados com os personagens. Assim, se uma empresa ou instituição quer usá-la, é possível contratar a MSP para projetos. E, assim, hoje a gente encontra gibi pra catequista ou espírita, em campanha contra alcoolismo na família e até em defesa da indústria de defesa nacional, esses indefesos. Por que a Turma da Mônica?

Ora, dois fatores aí: em primeiro lugar, esses quadrinhos são um fenômeno que não é só de mercado. Eles fazem parte da memória afetiva de todo o brasileiro, um quadrinho que se tornou hegemônico em mais de 50 anos de existência, praticamente a única mitologia infantil “autenticamente brasileira” de fácil acesso em todo o território nacional.

Assim como na turminha, parece que alto escalão de defesa brasileiro também emprega raros negros

E, por que quadrinhos? Não é de hoje que exércitos distribuem quadrinhos para explicar sua atuação – há uns 10 anos, um primo me trouxe o material da ONU distribuído na Costa do Marfim, histórias em quadrinhos explicando o trabalho dos boinas azuis na região. Aliás, até Will Eisner já fez cartum instrucional para o exército, como escreveu Michael Schumacher na biografia sobre o autor:

Não fazia muito que ele havia chegado a Aberdeen quando foi visitado por dois editores do Flaming Bomb, o jornal da base. O jornal precisava de um cartunista, e Eisner tinha que decidir se queria o serviço. A partir de 4 de julho de 1942, Eisner passou a produzir uma tira semanal, Private Dogtag [que o tradutor, Érico Assis, diz, em nota, significar “soldado Dogtag”, sendo dogtag “as plaquetas para identificação dos soldados em combate.” …]
A base estava criando um programa de “manutenção preventiva” […]. O problema era persuadir os soldados a fazer isso voluntariamente. A Unidade de Artilharia do exército dos Estados Unidos, à procura de um artista para criar cartazes de estímulo à prática, fez um concurso, e Eisner ficou com o serviço.
SCHUMACHER, Michael, Will Eisner, uma bibliografia em quadrinhos. Tradução de Érico Assis. São Paulo, Biblioteca Azul (Globo Livros), p. 105.

Tô gato? Eisner em uniforme militar (do mesmo livro)

E os “comunistas”, digo, os sindicalistas como a direita imagina que sejam, também usaram bastante quadrinho nos jornais do sindicato (o personagem João Ferrador nasceu do coletivo criado por Henfil e Laerte e, mais recentemente, Os Bodes do Rafael Campos Rocha fez aparição no jornal do PCO). Há ainda a crença de que os quadrinhos são mais “fáceis” de serem consumidos. A gente sabe que não é verdade, porém temos um contingente bem grande de pessoas que leem pouco ou mal, e quadrinhos seriam mais atrativos… é uma longa conversa. No entanto, esse quadrinho do Almanaque da Turma da Mônica: A indústria brasileira de defesa tem um público muito definido, as crianças. E, para elas, é preciso sempre pensar em coisas bem coloridas, personagens bem definidos e identificáveis.

O quadrinho Turma da Mônica é, portanto, um fator comunicativo importante, pois acessa essa memória, cria uma conexão rápida com o leitor: é um facilitador comunicativo.

Em segundo lugar, o gibi de banca não consegue sustentar sozinho toda a MSP. Aliás, no Brasil, com o monopólio de uma única distribuidora para as bancas de jornais, se você não for Abril, nem à banca você chega (mas isso é outro assunto). Para manter um negócio como esse funcionando, é preciso diversificar o produto, e aí a gente entende a defesa de seu chefe pela propaganda infantil. Ou seja, é a marca que ainda sustenta a nossa infância, nos seus derivados.

Até agora, estou no entorno, na Mônica como produto cultural. Esse modelo de negócios da Turma da Mônica, assim como muitos outros elementos, foi importado de outros gigantes: Disney, Tezuka, que se mantiveram graças a essa procriação de subprodutos – e grandes parques temáticos, que, segundo Waldo, o gato, em Bulevar dos sonhos partidos, foram ideias roubadas de artistas hoje completamente apagados pelo peso da grande potência Disney. Bem, então, peço um parágrafo para falar desse apagamento. Mas não fujo muito do nosso assunto, juro. Afinal, outro modelo importado pela MSP é a ideia de um grande estúdio com um grande número de roteiristas, desenhistas, arte-finalistas, coloristas e letristas, assim como Tezuka e Disney. E, assim como Tezuka e Disney, Mauricio de Sousa é o presidente da organização que realiza as histórias que há muitos anos ele nem desenha ou roteiriza. Em Para entender o Pato Donald, Ariel Dorfman e Armand Mattelard apontam como o discurso do quadrinho hegemônico Disney reproduzia, sustentava e difundia o discurso da nação hegemônica Estados Unidos da América por toda a América Latina. Com todos os exageros conspiratórios desses intelectuais de esquerda, de fato qualquer quadrinho produzido em determinado contexto está sujeito a reproduzir a ideologia desse contexto. E um parêntese nesse parágrafo: sempre a ideologia dominante é reproduzida, já dizia o patrono dessa coluna, o Roland Barthes, tanto que seria até pleonasmo dizer “ideologia dominante” pois a única ideologia que permeia todos os discursos é a dos poderes. Assim, um quadrinho Disney obviamente reproduzia o discurso de poder americano, e pouco fazia para contestá-lo, pelo contrário. Assim como a Turma da Mônica, os valores que são reproduzidos, a noção de bem e de mal, são os valores aceitos pelos discursos de poder da sociedade em que o gibi se difunde. Dessa forma, pouco ou nada se “revoluciona” em um quadrinho que se mantém estável e braço forte das elites por tanto tempo, tanto que até hoje mãe nenhuma da Turma trabalha fora e foram necessários 50 anos pra que um negro ganhasse gibi só dele sem que ele fosse jogador de futebol.

Aliás, a gente pode até lembrar que às vezes algumas coisas mudam nesse meio estável, como as gírias que penetram o vocabulário da Turma denotando um aceno ao contemporâneo, só que o Barthes já advertia: o poder tudo toma, toma tudo o que vira moda e tira sua potência. Tanto que teve até o “amigo gay” e, gente, amigo gay é a forma mais banal de pseudo aceitação da homossexualidade, é enxergar esse outro ali do lado como uma representação folclórica de um Oriente longínquo [no link, outra nota relacionada, outra também aqui, e repare na palavra “interpretação”].

Ah, nacionalismo, como era lindo ter orgulho das empresas com a nossa bandeira…

Então, nesse parágrafo que virou três, queria só fazer uma observação sobre o que o Dorfman e o Mattelart não viram: um fator extremamente simbólico do processo de alienação na produção dos gibis é a ausência de autor. Eles até chamaram a atenção para o fato dos personagens Disney não terem pai, e como isso queria dizer que ninguém poderia CRIAR numa sociedade desse tipo, como se isso tolhesse dos cidadãos a sua potência criativa, virando meros consumidores. Mas o meu ponto é outro: quem conhece história em quadrinhos conhece a história do Carl Barks, esse gênio dos patos que não assinava suas histórias. Não assinava porque, nesse modelo de estúdio, quem assina é o dono do negócio. Esse processo, como um todo, é mais alienante que essa suposição narrativa procurando discursos subliminares (no primeiro nível do discurso a gente pode encontrar as estruturas de poder gritando suas posições). Pois é que a partir do momento em que esse produto surge para nós como algo pronto, fluido e sem um enunciador original, ele nos surge como mágica. Aparentemente, há apenas uma pessoa que assina e é dela todo o poder criativo dessas histórias. Aliena-se a produção, aliena-se seus produtores. Esse é o grande jogo do capitalismo, fingir que as coisas não têm mão humana (apenas a grande mão do mercado pairando sobre nós e regulando os nossos desejos). Além dessa indistinção da produção, o próprio produto final é homogeneamente produzido. O estilo é regular e sem defeitos, evitando a todo custo que o leitor-espectador tenha acesso à complexidade. A linha é contínua e bem marcada, as cores são poucas e cada personagem tem uma roupa e caráter único muito bem definido. As soluções são simples. Diz que é para ser infantil, comunicar facilmente. Claro, há histórias com um humor genial (quem serão seus autores?). Mas essa constância, ao mesmo tempo em que ela serve à estabilizar esse produto e discurso, ela também cria essa ideia de estabilidade e continuidade nos discursos produzidos. Naturaliza-se certas coisas, como a mãe que só trabalha em casa e o marido fora, o índio com sua reserva folclórica de páginas e o negro como eterno coadjuvante. E, bem, é como em novela da Globo: eles detêm uma posição de ponta de lança dos discursos de poder, e não tentaram mudar nada antes porque participam da manutenção das coisas (há apenas poucos anos que as histórias da Turma passaram a ser assinadas, e isso foi um movimento iniciado com as Graphic MSP e seus precursores, os autores nas MSP 50).

Bem, então, voltando ao Almanaque Turma da Mônica e a Indústria de Defesa Brasileira. O Haroldo Sereza descreveu em pormenores a capa, no Opera Mundi, e aponta outro problema:

Ao aceitar fazer uma propaganda institucional da indústria bélica, Maurício de Souza rompe uma barreira moral mínima: não fazer propaganda para crianças de produtos que levam à morte. Indústria bélica é um fato incontornável da realidade do planeta, mas é chocante que Cebolinha segure um tanque de guerra em vez do coelhinho furtado da Mônica, que Magali troque a melancia por um submarino, que Cascão controle um helicóptero-drone em vez de um guarda-chuva, que Mônica segure uma corveta (me corrijam se for o caso) e que Titi pense em satélites militares.

Como ele aponta, é sabido que desde os anos 1980 não se desenham armas nas páginas da Turma, nem de brinquedo. Nem violência explícita. Alguém pode dizer que esses objetos não são armas nem há representação de violência. Bem, os sentidos não funcionam presos às palavras, nossos discursos e psique trabalham o tempo todo por extensão (metonímia) e comparações (metáforas). O tanque de guerra é, sim, uma arma de morte, não é?

Assim como o Haroldo, eu não pude analisar nada mais que a capa, a não ser alguns trechos por aí. Afinal, o gibi vai ser distribuído em escolas, e não sou o público-alvo da publicação (alvo aqui é uma palavra perigosa em tempos de intervenção militar). Talvez vá para o site, assim como o quadrinho sobre proteção ao consumidor (que culpa o consumidor que adquire supérfluos por seu superendividamento – esperando o Bugu aparecer com um “Alô, seu Capital” em alguma página), o Ministério Público, e os diversos materiais sobre o trânsito, ou talvez o clássico da “Mônica Liberal”. Mas a desculpa de que falamos do que “não lemos” despreza a capacidade mesma de leitura de milhões de brasileiros: estamos em mais um momento bem delicado como nação, das incertezas voltando, o medo de mais um golpe após o outro. Esse almanaque, mais do que um documento insensível do nosso tempo, também é seu sintoma: as hegemonias discursivas do Brasil, desde as vozes mais explícitas do reacionarismo que chega hoje via Whatsapp, até o gibi que se finge de ingênuo chegando na escola de suas crianças. E é isso o mais terrível, esse fingimento de que esse quadrinho é “apenas” um gibi, como se um gibi fosse “apenas” uma única coisa.

(Pois sim, parece necessário frisar: nesse país em que o rentismo, os proprietários da terra e a tradição ainda são dominantes e acachapantes, ainda não sabemos quantos morreram ignorados sob o regime militar, perpetuado nas práticas paramilitares da polícia dos estados e dos milicianos, ou ainda pelo jaguncinato dos donos da terra. E isso vem quando há 86 dias Marielle e Anderson morreram executados em uma tão grande capital brasileira… são mortes todas correlatas a esse sistema que finge que nada está acontecendo.)

 

Até quando a gente se depara com esse abismo do não saber o que está, de fato, acontecendo, é a Turminha que ilustra melhor a situação

De acordo com o Mauricio, “Através dos quadrinhos, que permitem uma linguagem simples, direta, objetiva e, principalmente, coloquial, nós podemos falar de qualquer coisa” (em vídeo). Mas aí é que está: essa linguagem simples, direta, objetiva, coloquial, apenas uma possibilidade no universo dos quadrinhos, ela é uma linguagem puramente funcional, a serviço de um discurso que não quer ser ambíguo, pois é preciso deter um significado único.

A capa e seus paratextos já são um discurso, como o discurso do próprio Autor (com A bem grande, pois assinou o contrato com o Ministério da Defesa), no site do próprio Ministério:

O cartunista reforçou que as histórias dos quadrinhos são lógicas, éticas e trazem mensagens consistentes. “Estamos conseguindo fazer este trabalho nos últimos 50 anos. Nossos personagens, nossa filosofia de trabalho e nossa técnica de comunicação faz com que consigamos atingir níveis estrondosos de crianças e adolescentes no Brasil e no exterior. Desta vez, com auxílio de personagens fortes e que todo mundo conhece, falamos de Defesa, assunto que normalmente não é abordado neste tipo de linguagem, mas que funciona muito bem”, afirmou. 

No discurso do Ministério da Defesa e do chefe da Mauricio de Sousa produções, o objetivo do Almanaque sobre a defesa militar brasileira era o de formar crianças, “semear o futuro das forças armadas” – assim como a propaganda que roda na TV, hoje, foca nos adolescentes, fingindo, mais uma vez, que as forças armadas são uma brincadeira. Mais uma vez, aqui, há um processo de alienação, mais uma vez a urgência de um significado único, universal, da verdade: vamos fingir que é isso e quem ler algo mais do que Eu disse é malicioso ou subversivo (o sujeito do discurso de poder é sempre um Eu maiúsculo, o rei, o dono, o pai…). Por sinal, uma palavra-chave nesse meio todo é valores, o valor da indústria de defesa, os valores econômicos gerados por tal indústria, os personagens da Turma que agregam valor ao produto comercial que eles embalam, os valores passados e preservados de geração em geração que são reforçados na narrativa e na estrutura geral do gibi. Valor é uma palavrinha de câmbio flutuante, e importante nesse contexto.

Versão da história pela Piauí

Como disse o jornalista Bolívar Torres no Twitter, nenhuma surpresa em ouvir o empresário se dizer honrado, “um trabalho que fizemos com gosto”. “Na sua biografia, Mauricio diz que recusou convites do governo Brizola no Rio Grande do Sul porque não queria que suas criações virassem ‘fantoches ideológicos’. mas depois cedeu os personagens pra campanhas educativas do governo militar”.

 

 

Essa deriva entre o “apoliticismo” e as tomadas de posições do lado do poder marcam, outra vez, essa vontade de alienação, o fingir que “não é bem assim”. Uma tomada de partido fingindo que não existe partido algum, que revela um partido bem definido, uma suposta isenção, sobretudo por se colocar em um lugar aéreo ou alheio ao tempo presente, o “ingênuo” “mundo das crianças”. Ora, essa é a tomada de partido pelo discurso dominante, pelo status quo; isto é, é pra manter tudo isso que está aí.

Captura de Tela 2018-06-05 às 22.06.20.png
Ver mais paródias do Daniel Lafayette do caso aqui

 

UPDATE: O pessoal do Meteoro teve acesso ao vídeo e mostra aqui.

***

Ao longo do texto, foram usadas algumas imagens do almanaque, da Turma, do evento, as paródias e m torno do assunto. Relendo agora, me pergunto: qual o impacto de tantas dessas imagens militarizadas nesse texto? Quero ler vocês sobre isso. Me escreve?

 

 

Ass.:Bartheman

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