
Era o final de dois anos de aulas de francês para uma turminha querida, e levei para eles meu capítulo favorito do meu livro favorito: “A espera”, dos Fragmentos de um discurso amoroso (Francisco Alves, 2001, tradução de Hortênsia dos Santos)de Roland Barthes.
Espera. Tumulto de angústia suscitado pela espera do ser amado, no decorrer de mínimos atrasos (encontros, telefonemas, cartas, voltas).
O Barthão lá dos fragmentos.
Nessa parte, Barthes explica como toda espera pelo outro, em um encontro marcado, pode ser vista como uma peça de teatro, em que o tempo cronológico leva a gente do ódio ao desespero absoluto pela falta desse outro. Qual não foi a minha surpresa quando meus chers élèves disseram que detestaram o texto. Algo sobre como aquilo retratava um relacionamento extremamente tóxico, e que absurdo alguém enlouquecer tanto por causa de outra pessoa.
Fiquei impressionada como essa geração consegue pensar as relações amorosas com esse distanciamento e ainda bem!, como repete a Liv Strömquist em A rosa mais vermelha desabrocha: O amor nos tempos do capitalismo tardio ou por que as pessoas se apaixonam tão raramente hoje em dia (Companhia das Letras, 2021, trad. de Kristin Lie Garrubo). No livro anterior da autora, A origem do mundo: Uma história cultural da vagina ou a vulva vs. o patriarcado, Strömquist já abordava o feminismo a partir da relação da mulher e sua vulva. Nesse livro, a autora sueca dos títulos gigantescos explora a obsolescência desse amante descrito por Barthes, em benefício de pessoas que se amam antes de tudo. A autora parte de notícias das separações de Leonardo di Caprio (e seus relacionamentos com mulheres bem similares), para escrever um ensaio sobre o amor nos tempos da selfie.

O mesmo francês Barthes, o filósofo coreano Byung-Chul Han, Platão (ou melhor, Alcibíades retratado por Platão), Slavoj Zizek, Lou Andreas-Salomé, Eva Illouz são alguns dos pensadores e pensadoras que a quadrinista cita para escrever esse ensaio em quadrinhos. A partir de muitas citações, ela nos explica, por exemplo, como as grandes declarações de amor que eram esperadas de um homem do século XIX (cujo status era validado pela formação de uma família (em que ele seria o único provedor)), perderam totalmente a razão de ser, posto que nesse século XXI o status de um homem é medido pela sua autonomia.
Ao mesmo tempo, a autora sueca traz testemunhos do amor na literatura, como as histórias da poeta Hilda Doolitle (H.D.) que se apaixona muitas vezes ao longo de sua vida.

Um poema escrito por Hilda, aos 74 anos, para um jovem jornalista, dá título ao livro:
Por que vieste perturbar meu decínio?
também traduzido por Kristin Garrubo.
sou velha (eu era velha até a tua vinda);
a rosa mais vermelha desabrocha (o que é ridículo, neste momento, neste lugar,
impróprio, impossível, até um tanto escandaloso), a rosa mais vermelha desabrocha;
ninguém o pode impedir, nenhuma ameaça imanente ao ar,
nem mesmo o tempo,
que rói nossos frutos de verão),
a rosa mais vermelha desabrocha
(é preciso levar isso em conta).
A forma que a Liv encontrou para escrever seus ensaios ou manifestos se dá por uma abundância de texto: uma verborragia que pode assustar um leitor acostumado a narrativas criadas exclusivamente pelo que se vê nas páginas. Não é um livro fácil de ser lido, não é um quadrinho rápido, com esse emaranhado de citações (todas com notas de rodapé com autor, obra e número de página! – na edição brasileira, ainda trazem o nome dos tradutores!). O texto vai ganhando massa pelas páginas, e algumas reiterações, como os pedidos de desculpas, em alguns momentos, de que pode estar generalizando, o “ainda bem” já citado quando ela mostra algumas mudanças na percepção entre as gerações, podem fazer algum leitor dizer “mas porque ela não corta isso?” No entanto, são essas reiterações que dão ritmo à leitura, e mostram como a autora está abrindo um diálogo entre o que ela leu e como ela sintetiza para a gente.

Há muitos outros elementos exagerados que ajudam na criação desse ritmo e de efeitos cômicos. E o exagero condiz com um ensaio sobre o amor (né, Cazuza?)

Além das notas de rodapé com informações sobre os livros citados (como acima), também há notas em que a autora dialoga com seus leitores:

Digo que é um ensaio em quadrinhos pois não temos aqui uma narrativa, e sim uma argumentação em quadrinhos, que faz bastante uso de referências, à la Bechdel, outra mestra do gênero.[*]
Liv às vezes ainda recorre à redundância entre o que é dito e o que é mostrado, dando efeito cômico por essa repetição. A forma dos desenhos, quase caricatural, também acrescentam graça a uma discussão bem densa: a autora zomba desses homens incapazes de amar, zomba do amor também.

Ela também faz uso de recortes de revistas, frame de Sex and the city, em um uso dessas imagens da mass media bem comum nos zines dos anos 1980.

Embora a Liv nos apresente a história de amor LGBT como da escritora cujo poema dá título ao livro, ela avisa, desde o começo, que fala basicamente de histórias de amor heterossexuais, e explica as mudanças de papéis no discurso social amoroso, ainda marcadamente heterossexual ou heteronormativo. Um dos pontos centrais do texto, porém, é como a entrega amorosa envolve uma alteridade que vem sendo substituída, nesses tempos hoje, por uma valorização excessiva do ego. Citando o Roland Barthes, ele fala de como, no amor, existe essa dualidade entre o amante e o amado: há sempre alguém que se “perde”, um que vai ficar esperando.
Estou apaixonado? – Sim, pois espero.
O Barthão sentimental.

São processos de transferência, desde a criança esperando pela mãe, que se sucederiam pela nossa vida amorosa. Assim, mesmo que seja necessário nos protegermos de relações ruins, negar completamente a queda também envolve um aumento das apatias contemporâneas.
O Barthes já dizia lá nos anos 1970: esse papel do amante (historicamente ligado ao feminino), sempre relegado a um segundo plano, fundamenta tantas narrativas, que ele esperava, utopicamente, um futuro mais apaixonado e feminino.
“Historicamente, o discurso da ausência é sustentado pela Mulher: a Mulher é sedentária, o Homem é caçador, viajante: a Mulher é fiel (ela espera), o homem é conquistador (navega e aborda). É a mulher que dá forma à ausência: ela tece, e ela canta […]. De onde resulta que todo homem que fala a ausência do outro, feminino se declara: esse homem que espera e sofre, está milagrosamente feminizado. Um homem não é feminizado por ser invertido sexualmente, mas por estar apaixonado. (Mito e utopia: a origem pertenceu, o futuro pertencerá àqueles que têm algo feminino” (p. 53).
Barthes, na trad. de Hortênsia dos Santos.
Por fim, Liv propõe uma resposta feminista aos relacionamentos contemporâneos desamorosos, com menos racionalização e menos medo da entrega: mais feminino nesse sentido barthesiano, e menos namoros à la Leonardo di Caprio.
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Outra publicação recente sobre o amor, a mais nova edição da revista Pé-de-Cabra, traz diversas maneiras de amor de que valem a pena ou nem valem. Se como dizia o Fernando Pessoa, toda escrita amorosa é ridícula, os autores dessa edição nos mostram que é melhor rir de amor do que morrer disso, porém.


Pergunta a Frida ao irmão, Xavier Ramos
As histórias de amor chegam nessa revista em suas mais diversas formas, do amor entre as pessoas, o amor divino, ao amor pela música, paixão, ódio, apatia, e otras cositas más. Como avisava em sua convocatória,
Amor, bicho? Sim, Amor, porra! A gente tá interessado nas formas mais esquisitas de amor. Das formas mais esquisitas, as histórias mais inusitadas, use a criatividade!!! A gente tá interessado em histórias de amor esquisito, interessado em gafanhoto comendo cabeça de seu conge, em incels convictos que dispensam todo o amor, naquela vez que você foi no programa do Rodrigo Faro se humilhar em rede nacional, em busólogos assistindo Transformers, A GENTE TÁ INTERESSADO EM VER QUÃO LONGE E QUÃO CRIATIVA ESSE TEMA AMPLO PODE IR. […]
A revista tem um foco majoritário em humor. Narrativas muito pessoais e/ou muito íntimas podem parecer que estamos rindo delas no conjunto da obra, então o foco aqui é oooooutra coisa.
É isso, escreva para o seu cupido e peça inspiração. Estaremos de coração aberto te esperando.
Chamada completa aqui.
Nunca esqueço da Amanda Miranda, comentando sobre ter participado em uma edição da PdC, de que revistas são uma espécie de feira de quadrinhos no papel: a gente encontra autores que não encontraríamos com facilidade em meio à floresta de algoritmos. Descobre-se pessoas novas, e é possível espiar uma diversidade de traços em histórias curtinhas. E ela lembrava da permanência dessas revistas nesses tempos sem feiras.
Nesses últimos anos, tivemos a sorte de poder consumir a Pé-de-Cabra 3, 4, A Zica 6, a Ragú 8, a Café Espacial (18 e 19), e a primeira El Perro Feo. Além de permitir esses encontros, são espaço de resistência (contra)cultural, amorais e com vontade de gozar (de/com) tudo em meio a esses tempos de violências contra a vida.

Entre cenas inusitadas em torno do amor e seus demônios, como a história acima de Nat Biriba (que, aliás, lança em breve gibi novo pela PdC), com uma página enlouquecida, preenchida totalmente por seus desenhos de contorno firme, bem udigrudi, aos traços finos de Xavier Ramos e uma cena banal com sua irmã e roteirista, Frida Ramos, a revista traz uma variedade de estilos e situações amorosas ou simplesmente mal-amadas.

Tem os desencantos do amor que aparecem em história reunindo meus amados Diego Gerlach & Batista, Júlia Quaresma constrói uma discussão mítica sobre o símbolo do amor, a maçã mordida (e seu bicho dentro). Pedro Shinali & Rodrigo Pimen invocam orixás em nome do amor, Chico Félix despeja a bile de um sujeito de bem que não conheceu nenhum amor, e Rebeca Catarina lembra do amor materno.

Nessa multiplicidade de estilos e histórias, essa nova edição conseguiu manter um ritmo interessante, autores jovens com nenhuma ou poucas publicações até então, e coesão na qualidade dos materiais. Trago aqui apenas uns trechinhos para mostrar a vocês, como essa sequência de páginas bem diferentes, em que o jogo com as palavras ficou bastante interessante (para não falar dos desenhos com traços peculiares).



Tem até um spin off de Sinuca Paranoide (comentei aqui) com Tony Bumbum (também personagem de videogame) de Vitor Bello, dessa vez ilustrado por Emilly Bona, e um manual Proerd para webnamoro seguro, da Júlia Jaroszewski, a jovem capista dessa edição, em seu primeiro trabalho impresso, “lembrando que namoro virtual em tempos pandêmicos é belo e moral”.

O perfil de todos os autores presentes nessa edição da PdC estão linkados aqui.

Em um momento bizarro demais no mundo, em que tantos amores foram desfeitos em meio a um apocalipse que nem sonhávamos viver (e por um tempo tão demorado), amar – e rir do amor – é importante, porra.
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[*] Uma nota da pesquisadora, que ainda deveria ser expandida, talvez aqui pelo [Bartheman]: Então não é quadrinho? É ilustração? Estou cada vez mais convencida de que, além do princípio da solidariedade icônica e da forma específica do seu dispositivo (artrológico), temos que levar em consideração os contextos de produção e de distribuição dos quadrinhos, seu meio, para considerarmos quadrinho um quadrinho. Assim como o livro da Liv, Kit Gay, de Kael Vitorelo, é feito reunindo elementos de livros-jogos e de histórias em quadrinhos para criar um ensaio visual. Os dois livros circulam no meio quadrinhos, são publicados por editoras e selos de quadrinhos, são comentados por críticos/jornalistas de quadrinhos. Se, como dizia o Antonio Candido (que Lielson e eu comentamos aqui), para existir um sistema de determinada arte (no caso, ele comentava a literatura), era preciso ter o triângulo autor-obra-leitor ativos, o fato de circular em um determinado grupo de leitores também ajuda a caracterizar uma obra como parte daquele sistema.
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Balbúrdia agradece às editoras Companhia das Letras e Pé de Cabra pelo envio amoroso dos livros.

2 comentários em “[Bartheman] Fragmentos do desamor contemporâneo”