[Bartheman] Tradução e a letra traduzida

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O Paulo Cecconi escreveu sobre seus trabalhos de tradução e fiquei pilhada. Afinal, foi a tradução de histórias em quadrinhos que me fez pensar mais sobre seu estilo, sua forma… foi traduzindo e pensando essa tradução que fui desenvolver pesquisa, e até escrever neste querido blog.

Pois então, a minha primeira tradução publicada foram as 676 aparições de KillofferA tradução foi um combinado com o Lobo, que havia deixado a Desiderata e ia fundar a Barba Negra com o Odyr, em 2008. “Vamos começar por esse aqui”.

Esse livro era uma paixão que descobrimos em comum, e eu pensei logo: ei, como fazer com que caiba a letra da mesma forma que ele escreveu? Ora, tem que ser que nem poesia, pensei, na mesma “métrica”. E aí fui contando letrinha, fui repensando o texto, para que ficasse tão gostoso de se ler como no original, com uma sonoridade um tanto poética, ao mesmo tempo em que sua forma fosse tão parte da imagem como o autor fazia questão de ser.

Captura de Tela 2018-05-15 às 15.56.02.png
meu velho arquivo word da tradução das 676 aparições

Mandei a tradução. A editora só aconteceria 2 anos mais tarde, e então com os três capitães Chico de Assis, Christiano Menezes, e o Lobo. E aí, quando a tradução finalmente ia sair, o Killoffer avisa: deixa que eu letreiro. Letreirar.

Ele foi bem rápido, tão rápido que, se não fosse seu estilo sinuoso, dava pra imaginar que era fonte. Mas também dava pra ver que ele não copiou+colou: várias palavras viraram outras, acentos e letras sobrando (é só ver lá na primeira imagem).

Não é uma questão de simples harmonia estética, porque não é algo que se cola ali: faz parte daquilo ali: o livro seria totalmente outro se fosse outra letra.

aqui parece a letra dele, mas cadê a sinuosidade? (tradução para o alemão encontrada online
Olha a diferença para essa em inglês

***

A tradução do quadrinho, fui sentindo isso aos poucos, não podia esquecer dessa materialidade da página, da materialidade da letra, o discurso que se faz imagem.

Com essa tradução, também, acabei indo trabalhar como produtora editorial, mais tarde editora assistente, uma das piratas da Barba Negra.

Durante esses anos, com cada quadrinho, estrangeiro ou brasileiro, a equipe se preocupava com a relação da fonte ou letreiramento, se seria manuscrito ou digital. Esse cuidado que aprendi a observar nessas produções, me fizeram ver essa relação da letra como parte da assinatura de um autor – mesmo se decidida por uma equipe, ela deveria transparecer um estilo específico.

***

A banca de que participei era de ninguém menos que Érico Assis, aprovado com louvor. Lembramos de trabalhos importantes como da maga do letreiramento brasileiro, a Lilian Mitsunaga (que letreirou essa tradução de Kim Deitch da todavia abaixo), e de outros casos em que o descuido com essa função acabava por descaracterizar a obra.

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Ele abordava exatamente a importância do letreirista (ou letreirador) na tradução de histórias em quadrinhos, entendido por ele como um tradutor, também. Afinal, quadrinho não é apenas texto e imagem: ela é texto que se faz mais marcadamente imagem (e todo texto é imagem, na verdade, mas pra isso a gente tem a Anne-Marie Christin e outros teóricos da escrita que vão dizer melhor… e por enquanto pode ver na minha tese, também 😉 ).

***

676 aparições de Killoffer é um livro que me ronda. Foi o pontapé inicial na minha carreira de tradutora, tem todo o apelo estético determinante para minha vida de pesquisadora, e é um livro muito bom. Essa semana um conhecido me avisou que achou a 10 reais nas Americanas. Desses livros que ninguém compra pela estranheza, e é justamente o amor a essa estranheza que me liga a tantos apaixonados pelo livro.

 

 

Bartheman

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